Sempre me impressionou muito esse termo, “silêncio ensurdecedor”, provavelmente cunhado por Nelson Rodrigues para descrever o clima que se instaurou nas rampas do Maracanã no dia da fatídica final da copa de 50.
Eu não ouvi o silêncio ensurdecedor que deu origem a série, primeiro porque só nasceria 22 anos depois. Mas, na vida, já tive a oportunidade de ouvi-lo algumas vezes, em situações mais particulares que não se comparam aos 120 mil torcedores cabisbaixos que foram pra casa naquele dia.
Uma dessas oportunidades foi no final da apresentação do meu trabalho de conclusão na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo no Mackenzie, em 95, 96. O silêncio que se seguiu ao ponto final da minha dissertação foi um desses tais silêncios ensurdecedores, só quebrado pelo meu orientador que, solidário, tratou de simular um aneurisma diante da banca examinadora.
A outra foi na saída do filme “As Pontes de Madison”.
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Lembrei desse filme pois vi dia desses, no jornal, um anúncio de página dupla sobre a adaptação do filme para o teatro, que já deve estar em cartaz na cidade. Pra quem não sabe a história, vou tentar resumir aqui: na pacata cidade que dá nome ao filme, a linda personagem vivida pela também linda Meryl Streep (candidata ao Oscar na ocasião), uma dona de casa casada, mãe de dois filhos, se apaixona perdidamente por um forasteiro não menos charmoso e encantador, o fotógrafo da National Geographic John Kincaid (calma, consultei na internet) vivido por Clint Eastwood - que também dirige o filme.
Papo vai, papo vem, a personagem principal se vê diante da grande decisão cruel: largar tudo, partir com o fotógrafo para um “amor de filme” idealizado, apaixonado, onde tudo (literalmente) se encaixa com perfeição, ou ficar com o amor da vida real - filhos, mulheres, maridos… - que, alguns de nós sabemos, demanda uma certa dose de compromisso, altruísmo e renúncia.
Pois a cena em que ela se decide é, pra mim, uma das mais tristes já vistas no cinema. Alí, na chuva, com o coração em frangalhos e a certeza de que, dalí pra frente, levaria uma ferida pro resto da vida, Francesca se decide. Na plateia, grudados nas poltronas, sem respirar, não nos arriscaríamos a fazer um prognóstico. E, decisão tomada, ninguém se arriscou a julgar; sabíamos, tinhamos certeza, de que fora uma decisão difícil, sofrida, complicada.
Foi uma decisão muito dura.
O máximo que podíamos fazer, alí, era dividir as lágrimas e o aperto no coração com a personagem principal. E sair, pelos corredores do Belas Artes, naquele clima de velório, com medo de que um dia tivéssemos que enfrentar a mesma decisão.
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(O silêncio… tá ouvindo?)
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Ps. Escrevi esse post no café, que tocava no sistema de som o último sucesso de Orlando Morais. E, acredite, acho que é melhor ser surdo do que ouvir as canções do marido da Glória Pires.