Há tempos ocorre por estas plagas o estranho fenômeno no qual o Brasil só reconhece o valor de certos artistas depois que eles recebem o merecido reconhecimento lá fora. Os exemplos são muitos, e sem esforçar muito a memória recordo do caso de Tom Zé. Um dos mentores do Tropicalismo, nunca recebeu o devido reconhecimento por aqui, até que David Byrne, líder do grupo Talking Heads, descobriu durante uma de suas viagens ao Brasil o vinil de “Estudando o Samba” em um sebo, encantou-se com aquelas composições e contratou o cantor e compositor baiano para o seu selo Luaka Bop. Resultado: Tom Zé, que estava a ponto de abandonar a carreira musical para ir trabalhar em um posto de gasolina em sua cidade natal, Irará, no interior da Bahia, lançou no exterior o álbum “The Hips of Tradition” em 1992 (após ter amargado oito anos sem qualquer contrato com gravadoras), foi consagrado pela crítica lá fora e, enfim, passou a ser visto com outros olhos em sua própria terra.
Menos mal que a dupla de grafiteiros Os Gêmeos, alcunha utilizada pelos irmãos paulistanos Gustavo e Otávio Pandolfo, não chegou ao ponto de cogitar abandonar suas atividades artísticas. Porém, não posso deixar de lamentar o fato de que, tal qual Tom Zé e muitos outros nomes como Alberto Cavalcanti, Laurindo Almeida, Trio Mocotó e Bebel Gilberto, eles só estão ganhando o merecido reconhecimento na Terra Brasilis após serem reconhecidos no exterior.
O maior exemplo do que digo está na foto que ilustra este post, que achei no Flickr de Fran Mosquera. O grafite acima, que fazia parte de um painel feito há seis anos, de mais de 700 metros quadrados, na Avenida 23 de Maio, pelos Gêmeos na companhia de outros grafiteiros como Nina Pandolfo, foi apagado “sem querer” por uma empresa contratada pela prefeitura de São Paulo no começo deste mês. Ironicamente, esse atentado à street art ocorreu no momento em que Os Gêmeos foram convidados a pintar as paredes externas do castelo de Kelburn, o mais antigo da Escócia, e a fachada da Tate Modern, uma das mais importantes galerias de arte de Londres. Em tempos nos quais museus paulistanos como o MASP e a Pinacoteca do Estado sofreram roubos recentemente, o que dizer de um caso como este no qual uma obra inestimável de street art foi simplesmente apagada e extirpada da visão de nossos olhos embotados de cinza?
A quem ainda não conhece a obra de Os Gêmeos, recomendo assistir ao vídeo abaixo, que encontrei no Portal Senai Design. Cada vez que o vejo, fico mais indignado com o crime que foi cometido contra a arte urbana brasileira.
O desenho, além de criticar o excessivo comercialismo em torno da data (e isso em 1965!), resgata o verdadeiro sentido do Natal por meio de um belo monólogo feito por Linus. Mas, para mim, a imagem mais marcante desse episódio é a pobre e desajeitada árvore de Natal providenciada por Charlie Brown (que faz com que Snoopy dê uma das risadas mais gostosas que já ouvi na vida).




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