Como mudar a sua vida graças a um blog e ao amor pela culinária? Julie Powell era uma funcionária pública, que, à beira de completar 30 anos, penava com um emprego mediocrizante e as pressões familiares para que tivesse um filho. Morando em um quitinete no subúrbio novaiorquino de Queens, Julie decidiu engajar-se em um desafio pessoal capaz de distraí-la da falta de melhores perspectivas. Foi aí que, em 25 de agosto de 2002, deu início ao “Projeto Julie/Julia”: um blog no qual passou a relatar seu objetivo de cozinhar em 365 dias todas as 524 receitas do livro “Dominando a Arte da Cozinha Francesa”, publicado em 1961 por Julia Child, uma espécie de Ofélia americana - a mais famosa cozinheira dos Estados Unidos, que durante anos apresentou um programa de TV, chegando a ser capa da revista Time em 1966.
Pois bem: Julie Powell não apenas completou seu desafio pessoal como fez com que seu blog, que nos primeiros meses não recebia um comentário sequer, se tornasse conhecido a ponto de virar livro e best-seller na lista do New York Times, mudando totalmente a sua vida. O próximo passo, naturalmente, tornou-se o cinema. O filme, “Julie & Julia”, dirigido por Nora Ephron (de “Sintonia de Amor” e “Mensagem Para Você”), estreia nesta sexta, dia 27, nos cinemas brasileiros. Seu roteiro é baseado em duas histórias reais: a de Powell (interpretada nas telas por Amy Adams, indicada duas vezes ao Oscar por “Junebug” e “Dúvida”) e a de Julia Child.
Child é interpretada por Meryl Streep, que com este papel tem tudo para receber sua 16a. indicação à estatueta da Academia de Hollywood. Eu, que nunca havia ouvido falar no nome de Julia Child antes de assistir a este delicioso filme, fiquei estupefato quando encontrei no YouTube uma entrevista que ela concedeu a David Letterman em meados de 1987. O vídeo, além de mostrar que Child era a simpatia e o carisma em pessoa, prova como Meryl conseguiu emular à perfeição sua figura sui generis.
Como não poderia deixar de ser com um filme surgido a partir de um blog, a divulgação de “Julie & Julia” na internet usa e abusa de mídias sociais. Seu hotsite possui um agregador de conteúdos online sobre receitas culinárias e o filme publicados em blogs, Twitter, Flickr e YouTube. Além disso, possui perfil no Twitter e página no Facebook. Aliás, foi por meio do agregador de conteúdos que encontrei um post de Fal Azevedo (que, não por coincidência, é blogueira, escritora e tradutora de “O Amor é Fogo”, livro de Nora Ephron), no qual ela elenca algumas boas razões para assistir a “Julie & Julia”. Dentre elas, destaco esta em especial:
Porque é uma delícia poder acreditar, ainda que no escurinho do cinema, ainda que só por algumas horinhas, que o talento será recompensado, que o amor existe, que alguém vai gostar da gente porque sim, que a vida tem solução e que teremos coragem de tacar a lagosta viva na panela com água fervendo.


A segunda ação é o projeto
Há tempos ocorre por estas plagas o estranho fenômeno no qual o Brasil só reconhece o valor de certos artistas depois que eles recebem o merecido reconhecimento lá fora. Os exemplos são muitos, e sem esforçar muito a memória recordo do caso de Tom Zé. Um dos mentores do Tropicalismo, nunca recebeu o devido reconhecimento por aqui, até que David Byrne, líder do grupo Talking Heads, descobriu durante uma de suas viagens ao Brasil o vinil de “Estudando o Samba” em um sebo, encantou-se com aquelas composições e contratou o cantor e compositor baiano para o seu selo Luaka Bop. Resultado: Tom Zé, que estava a ponto de abandonar a carreira musical para ir trabalhar em um posto de gasolina em sua cidade natal, Irará, no interior da Bahia, lançou no exterior o álbum “The Hips of Tradition” em 1992 (após ter amargado oito anos sem qualquer contrato com gravadoras), foi consagrado pela crítica lá fora e, enfim, passou a ser visto com outros olhos em sua própria terra.