Em 1993 fui ver Michael Jackson no estádio do Morumbi. Foi memorável. Memorável de ruim.
Não é que o cantor, compositor e dançarino tivesse feito uma performance pálida: estavam lá o moonwalk, os gritinhos, o jeito resfolegado de cantar e ao mesmo tempo a absurda precisão e dominio musical dele e de sua equipe de músicos, bailarinos e técnicos. Tudo perfeito e minucioso, como tinha que ser. Tudo controlado e sincronizado, como nas festas do Oscar e nos musicais da Broadway, know-how que os americanos desenvolveram e que praticam como ninguém.
O problema foi a concepção do espetáculo: não era um show de MJ, e sim uma coletânea de seus clips, encenados ao vivo com a mesma direção com que foram imortalizados na tela das TVs e no imaginário das pessoas. Mesma coreografia, mesmo figurino, tudo sublinhando que o importante era fazer igual ao original. E mais: entre cada número musical, passavam-se cerca de 5 minutos (!!!) durante os quais nada acontecia. NADA. Nem música, nem imagens no telão, somente o palco vazio esperando a montagem do próximo cenário. E o público foi esfriando. E o show foi ficando chato. Era um espetáculo criado para funcionar no Kodak Theatre de Los Angeles (casa do Oscar), aonde o backstage é construido para esse tipo de montagem. Mas ali não funcionava, e o que era para se tornar um grande momento musical virava uma espécie de museu de cera encenado, uma cópia idêntica das imagens orbitando em torno de sua persona. Sala de espelhos sobre o palco.
O que, aliás, diz muito sobre quem foi esse mito da música pop e sobre o que significa ser um mito midiático, hoje em dia. Ou antes, o que significa ficar preso em suas próprias imagens, amplificadas e ecoando ao redor do mundo, sem o controle de seu criador. Talvez, para se perpetuar em Peter Pan, MJ tivesse mesmo que tentar ter todo o controle sobre sua produção visual, na inútil tentativa de evitar que o futuro viesse e ele crescesse. Mas o futuro veio, e com ele as acusações de pedofilia e a exploração sensacionalista da mídia sobre seus atos: virou genro póstumo de Elvis Presley, pareceu querer jogar o filho pela janela, usou o próprio corpo para testar sua triste mutação fisica (nos versos de Gilberto Gil: “Michael Jackson ainda resiste/ Porque além de branco ficou triste”). Nesse sentido, foi Peter Pan e Dorian Gray falidos: o personagem de Oscar Wilde não queria envelhecer, mas com o tempo seu retrato passou a mostrar cada vez mais uma pessoa fisicamente deformada.
O triste, nisso tudo, foi a imagem do mito se apossar do talento musical que ele tinha desde criança, dominando e secando sua gigantesca musicalidade. Jogado aos leões do star system, MJ não conseguiu evitar de ser esquartejado ainda em vida. Seu gênio musical foi minguando, na desesperada tentativa de repetir o impacto que foi Thriller. Novamente, a repetição, o clip copiado ao vivo, a auto-simulação no lugar da auto-invenção. Esse é um jogo que interessa à mídia, e infelizmente interessou a MJ também. Ou talvez ele não tivesse escolha e esse fosse seu destino escrito - se é que isso existe.