No post que o Gini fez outro dia sobre street art, além da preocupação de definir se é arte ou vandalismo, ou da bobagem da nomenclatura, me pareceu que cada comentador tinha um viés – ou uma agenda própria – pra defender. Eu sei que eu tinha, sem perceber: meu viés era o do consumo. Como eu acho que muitos grafites –não todos– são arte, eu no fundo os defendia vendáveis para eventualmente, se quisesse, poder comprá-los. (Estou simplificando o raciocínio, claro.) Acho que não estou sozinha nesse barco: hoje a lógica do consumo se sobrepõe fácil às outras lógicas. Tomamos decisões de consumo o dia inteiro, temos expectativas de consumo o tempo todo, o que me aflige tremendamente (muito burro dizer isso num blog cheio de publicitários?). Por sorte, acabei de voltar de um resgate, num show do Sesc Avenida Paulista de um intérprete ainda pouco conhecido: Celso Sim. Como fui por conta de amigos comuns, não tinha nenhuma expectativa de consumo; fui para fazer número, para rever pessoas. E livre da lógica perversa, posso dizer que foi um dos melhores shows que vi nos últimos tempos, em todos os aspectos (acho que eles também estavam livres da lógica de provocar o consumo, felizes por poder tocar –são profissionais amadores, no sentido de que amam o que fazem, como diz o Walter Longo):
- Começa pelo ambiente. Como não tem expectativa de gerar consumo, o show pôde acontecer no 5º andar do Sesc numa sala pequena de acústica ótima e com um janelão de vidro de onde se vê a cidade iluminada à noite, o que vira um belo elemento cênico. A platéia pequena e cheia fica toda juntinha, em torno de um palco no mesmo nível, que foi montado como um heliponto.
- Aí vem o repertório diferenciado. Músicas pop desconhecidas (e muito boas) da novíssima geração, tipo Guilherme Wisnik, se misturam com músicas imortais brasileiras como “Saudosa Maloca”(trágica e minimalista ali), com estrangeiras como “Negro Amor” do Bob Dylan (demais), com Oswald de Andrade musicado, com Cazuza falando, com Schumann lindamente letrado etc.
- Aí vêm os músicos e os arranjos. Deus do céu. A banda “Os Caras” tem parte da turma que tocava com o Itamar Assumpção, como Paulo Lepetit (baixo e arranjos) e Gigante Brasil (bateria). No samba “Antonico”, o Webster Santos toca um cavaquinho “eletrônico”, com pedal de guitarra, que é de arrepiar. De arrepiar mesmo, sem exagero. E nas quintas-feiras, tem participação do Arthur Nestrovski, violonista de formação clássica, que toca o Caymmi do “morrer no mar” como eu nunca vi igual.
- E tem o Celso. Ah, o Celso… A voz lembra um Caetano Veloso mais puro, e certamente um Caetano mais dono do palco. O lance do Celso é a interpretação. O cara dá significado ao que canta (ele entende; desconfio que nem todos entendem) e marca cada música como quem marca seu gado.
Tudo isso por apenas R$ 12, por conta de patrocínio da Petrobras. E só tem show agora nos dias 24 e 25/9, depois eles viajam. O show se chama “Vamos logo sem paredes”, clique aqui para saber mais. Fazia tempo que eu não ia sem expectativa de consumo a um show. Como é bom voltar à velha fruição (a palavrinha é feia, mas significa muito). Pena que eu criei alguma expectativa de consumo para quem se deu ao trabalho de ler este post. Sorry.PS: Além da expectativa de consumo, acho que a gente anda tendo outra expectativa que atrapalha a vida: a de que para tudo “a gente tem que dar nota, tipo dedão pra baixo, dedão pra cima”, como escreveu o Wagner outro dia. Melhor seria avaliar menos e fruir mais, na linha do “canto de lábio pra baixo ou canto de lábio pra cima” (citando-o novamente).
