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Sermões da felicidade: pessimismo X eudaimonia

aristo.jpgVocês já têm algum compromisso para o dia 22 de março de 2009, às 11h30? Se estiverem em Londres, podem ter. Vão ao The Horse Hospital, em Bloomsbury, assistir a um sermão dominical moderno. Em vez de um pastor, vocês encontrarão o filósofo Alain de Botton. Partindo de seu compromisso “com a idéia de fazer as pessoas mais felizes”,  ele vai dar um sermão sobre o pessimismo. Ele teria descoberto o paradoxo de que, quanto mais pessimista você for (quanto mais focado no lado dark da experiência humana), maiores suas chances de ser feliz pessoalmente. Já se comprar a promessa “burguesa” de encontrar felicidade no amor e no trabalho, você está perdido, segundo o Alain, porque as probabilidades de isso ocorrer seriam mínimas.

Em São Paulo, não temos o charme inglês dos sermões da School of Life, panteão londrino dos cursos rápidos e da snack culture, que pertence ao Alain e é a organizadora do evento. Mas temos nosso próprio templo de cultura snack na Casa do Saber. E, conforme o calendário, temos a eudaimonia. É a felicidade filosofada por Aristóteles (esse da foto), como estado mental associado a alegria e prazer plenitude e que se basta em si, independendo do mundo exterior. Eudaimonia tem, por exemplo, a pessoa que transa em vez de querer discutir a relação. Ou seja, eudaimonia é a resposta ao pessimismo do Alain –e é o objeto de desejo máximo. Eu ainda estava sob o impacto do paradoxo do pessimismo quando esbarrei na eudaimonia na semana passada, na ExpoManagement, o megaevento de executivos da HSM. O professor de filosofia Clóvis de Barros Filho fez lá um verdadeiro sermão de salvação sobre ela, daqueles de dar inveja em pastor de igreja de filme americano antigo. Ele é um senhor pregador (e a metáfora da transa para a eudaimonia é dele).

Não que eu não gostasse de ver o “pastor” Alain em Londres. Ainda mais com essa crise global, ele deve estar inspiradíssimo, deitando e rolando no pessimismo. Mas o site da School of Life avisa que os ingressos se esgotaram, uma pena…. E o “pastor” Clóvis, por sua vez, está sempre dando cursos na Casa do Saber, pertinho de nós. Hoje mesmo ele começa um, intitulado Geometria das Paixões (a história do pensamento pelo viés das paixões) – só que o horário é 12h30… Tudo bem, vai, admito que não quero felicidade via pessimismo, não sei se é o que vocês querem. A filosofia “quanto pior melhor” já basta na mídia… Agora que sei que ela pode existir, eu quero é a minha eudaimonia!

PS de café filosófico 1: Será que a snack culture –onde todos os nossos posts se inserem, aliás– não anda de mãos dadas com a eudaimonia? Com a dedicação à construção de uma cultura realmente profunda e sólida como uma rocha (isso existe?), será que sobra tempo para cultivar o tal estado mental?

PS de café filosófico 2: Como diz o Neto, no UoD tem de tudo. Então, tem também um programa de TV do Alain de Botton sobre o Epicuro, o pessimista, cujo conteúdo deve ser similar ao do sermão se você não quiser perder. Eu brinquei, mas Epicuro é muito bom! Clique aqui.

15 Responses to “Sermões da felicidade: pessimismo X eudaimonia”


  1. Gravatar Icon 1 ze

    po, muito mais interessante a historia do pessimismo!

    casa do saber e felicidade infinita me parecem coisas de burgueses alienados

  2. Gravatar Icon 2 Gini (Madrid/ESP)

    realismo, nem pessimo, nem otimismo! simplesmente o poder de dar um passo com cada pé olhando para baixo! Nada de novo. E concordo com o comment de antes Casa do Saber é pra dondoca metida a cult!

  3. Gravatar Icon 3 Adriana Salles Gomes

    Bom, uma resposta de cada vez: 1) o pessimismo é interessante, sem dúvida, mas como em vários meios sociais o pessimismo é muito mais cool e cult que esse sentimento de bem-estar com a vida e consigo mesmo, questiono o que é realmente burguês nos dias de hoje (Alain de Botton e School of Life não são burgueses?); 2) não me consta que precise ser alienado para desenvolver a eudaimonia; parece ser o exato oposto (embora eu precise estudar mais sobre o assunto); 3) só dar um passo com cada pé olhando para baixo é um objetivo de vida meio medíocre na minha opinião, nem acho que seja algo válido para a maioria dos filósofos –parece desperdício de vida; 4) acho que é preciso não misturar a Casa do Saber e seus professores com seus vários segmentos de clientes (o Clóvis, por ex., é professor de filosofia da USP – mas não da FFLCH, erro meu, e sim da ECA, como me corrigiu o Alexandre Cicconi abaixo); 5) eu admiro quem se autoproclama realista; das 3 “predisposições” diante da vida, é, além de a mais subjetiva, a mais ousada, porque a pessoa diz com isso que sabe o que é a realidade; 6) prefiro dondoca metida a cult a dondoca que não tenta nada nessa área. Inclusive, é a dondoca metida a cult uma das maiores apreciadoras e consumidoras dos vários artigos de design e moda de que falamos, e pelos quais babamos, às vezes neste site –e acho que as eventuais dondocas merecem respeito por isso; 7) a meu ver, tem coisa nova, sim, pelo menos o formato “sermões filosóficos” e a polarização filosófica sobre a felicidade (aplicada a um contexto de crise). Senão, eu não tinha postado.

  4. Gravatar Icon 4 Gini (Madrid/ESP)

  5. Gravatar Icon 5 RaF

    Segundo Aristoteles, a felicidade,no sentido de ¨plenitude de ser¨ pode ser alcançada pelo homen com o acumulo de Riquezas, com Honra e Fama outros no entanto creen poder alcançala pelo prazer.
    Voces dois parecem o cara que transa argumentando com a garota que quer discutir a relaçao.

  6. Gravatar Icon 6 Adriana Salles Gomes

    RaF, dá uma lida aqui na Wikipedia: Eudaimonia is constituted, according to Aristotle, not by honor, or wealth, or power, but by rational activity in accordance with virtue over a complete life. Such activity manifests the virtues of character, including, honesty, pride, friendliness, and wittiness; the intellectual virtues, such as rationality in judgment; and non-sacrificial (i.e. mutually beneficial) friendships and scientific knowledge (knowledge of things that are fundamental and/or unchanging is the best). Eudaimonia é um sentimento de ser COMPLETO, e não parece ter a ver com riquezas, honra e fama, não. Mas de fato Epicuro e outros mergulharam mais no componente “prazer”.
    Transar argumentando sobre a relação tô fora hahahah. Mas sua aplicação da metáfora do Clóvis foi inspirada, gostei! E vc me lembrou do meu compromisso com a eudaimonia! É que é muito recente ainda, não me acostumei, mas vou ficar quietinha…Abs! :)

  7. Gravatar Icon 7 Gini (Madrid/ESP)

    apoiada.

  8. Gravatar Icon 8 Adriana Salles Gomes

    Hahahahahah, Gini.

  9. Gravatar Icon 9 Gini (Madrid/ESP)

    E antes de más nada, as dondocas a quem me referi, não incluiam você, Adriana.

  10. Gravatar Icon 10 Adriana Salles Gomes

    Isso não me passou pela cabeça, não se preocupe.;)

  11. Gravatar Icon 11 Ruy

    eu já achei o primeiro comentário fantástico. taí um exemplo de como opiniões e preferências andam juntas. :)

  12. Gravatar Icon 12 Adriana Salles Gomes

    Ruy, tb gostei da primeira frase do primeiro comentário, muito sincera: “Po, muito mais interessante a história do pessimismo!” (Até porque é interessante mesmo, lógico, senão eu nem poria aqui!) Mas no resto do caminho perdi a paciência. A culpa nem é do Zé, eu sei. É que, embora eu tenha resolvido abraçar a eudaimonia, hoje, só hoje, estou sem “plenitude” para ser chamada de burguesa alienada por isso. Em outros dias, isso talvez passasse batido, porque eu costumo ter resiliência diante dos desaforos heheheh. Mas hoje, só hoje, eu quero que meus argumentos sejam rebatidos com educação. Sei lá. Conjunção astral provavelmente… :)

  13. Gravatar Icon 13 Alexandre Cicconi

    Adriana,

    Fui aluno e sou amigo do Clóvis, ele da aula na USP mas é na ECA não na FFLCH, embora tanha se formado em filosofia lá.
    Segundo ele, está enganado quem pensa que as dondocas da casa do saber são “meras dondocas”. Muitas delas, têm muito tempo livre e aproveitam para ler muito (no original).

    Esqueci de deixar o site.

    http://www.espacoetica.com.br

  14. Gravatar Icon 14 ze

    marilena chauí tb não ajudou mto a defender seu ponto

    casa do saber, a gnt sabe q é só pra burgues vomitar em rodinhas de conversa

    felicidade infinita é um saco. vc nao odeia quando voce ta naquele bode e tem aquele povo sorriso-na-cara que fica te mandando ser otimista?

    se nao, vc É um deles! cuidado!

  15. Gravatar Icon 15 Adriana Salles Gomes

    Obrigada pela dica, Alexandre, SUPERvaliosa. Eu mesma vou querer ir atrás de algum curso dele em algum momento. Inclusive, pessoal, o Clóvis não fala só de Aristóteles e de eudaimonia, viu? Ele tb pode falar de Epicuro, de Sêneca (que faz parte do sermão do Alain de Botton tb) e, quem sabe, até de Alain de Botton…:) Zé, desculpa, mas acho que vc está confundindo seu bode pessoal com pessoas invasivas e intrometidas (ninguém deveria mandar ninguém ser otimista, concordo com vc!) com filosofia. Pra que serve filosofia? Essa é uma pergunta supercontroversa, mas dá pra citar o Aristóteles numa tentativa de resposta. Ele dizia que, pra bem viver, as ciências produtivas são as mais necessárias, mas, pra viver bem, a filosofia é a mais sublime. Adotei: pra mim, filosofia é pra viver bem e eu procuro um jeito de chegar a isso com ela, o meu jeito. Vc pode procurar o seu jeito, talvez na linha do pessimismo. E tá tudo certo. Eu não me intrometo no seu, nem vc no meu, respeito mútuo. Outra coisa: não dá pra desrespeitar Marilena Chauí, me desculpe. Ela tenha os problemas que tiver, é uma fera entre os acadêmicos brasileiros da área; conheço muita gente que estudou com ela e a opinião é unânime (e acho que não só em Spinoza). Eu tb respeito o trabalho da Casa do Saber, mas aí concordo que a unanimidade não é a mesma da Chauí.

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