
Difícil escutar com toda essa gente falando
Mentor Muniz Neto
Deve ser bom ser David Pogue.
Pogue tem um dos dream jobs do mundo moderno: assina a coluna de tecnologia do The New York Times. Seu trabalho consiste em avaliar os gadgets que serão lançados no mercado com meses de antecedência. Boa parte deles, Pogue destrói com críticas mordazes. Quem arriscaria comprar um equipamento abominado pelo NYT? Eu é que não.
Afinal, nos dias de hoje, o gadget-da-vez fala muito sobre quem é você. Tanto que arrisco uma sugestão para seu próximo currículo: bacharel em Não-Sei-Quê, formado pela faculdade Tal, tem uma Bravia de 42″, é fluente em Wii, XBox e PS3. Também envia e-mails pelo Blackberry, enquanto dirige veículo próprio.
Contratem já esse sujeito, por favor!
Aí você vai dizer que trend setters, early adopters, líderes de opinião são tão antigos quanto aquele vizinho do seu avô que comprou a primeira TV da rua. Verdade. Mas, antigamente, pioneirismo tecnológico era sucesso numa roda de amigos. Hoje virou atributo profissional e garante o seu emprego. Assim, você não precisa apenas ser bem informado. Precisa parecer bem informado. Como disse Seth Godin, “estamos todos no negócio da Moda”. E é justamente para dizer o que é moda que surge David Pogue e milhares de gurus-to-be de plantão.
No long tail da blogcracia, a um google de distância, qualquer um tem opinião, é ouvido e impressiona parte da audiência.
Duvida? Pense num número de 1 a 5. Concentre-se. Envie suas ondas mentais. Estou recebendo. Você pensou no número… 3. Incrível, não? Se eu errei, você faz parte dos 80% que não vão me levar a sério. Se acertei, bem-vindo aos meus 20% de leitores fiéis. É a Lei de Pareto. Nada mau para meu primeiro texto.
Mas o que isso prova?
Prova que filtrar as fontes é tão importante quanto compreender a informação.
Esse é o desafio. Ainda mais para quem, como eu, é miseravelmente metódico. No sudoku, por exemplo, vou checando quadradinho por quadradinho. Quando encontro um que permite apenas um número, escrevo o tal número e checo tudo de novo. Era feliz sendo metódico: lia sempre as mesmas seções do jornal, ia para o trabalho escutando a mesma rádio. Entediadamente feliz e sem surpresas nas conversas dos almoços e jantares.
Agora passo o dia escrutinando todos os assuntos relevantes. Que fonte é confiável? Qual informação é importante? Ora, como é que vou saber, se estou aqui, afogado num Katrina de opiniões? Aí alguém diz: você viu isso? e eu não vi.
Basta!
No final do dia, gadgets desligados, quando você precisa entregar resultados, não tem Pogue nem Godin nem Treo nem iPhone que salve.
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