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Sobre fazer upload antes de fazer download (#Trip)

Ontem à noite eu fiquei mal.
Onde eu estava tinha tanta gente que faz diferença no mundo, para valer e não por slogan, que baixou um daqueles momentos “e o que eu ando fazendo da minha vida”.

Depois fiquei bem. Muito bem.
Porque percebi no palco do Auditório Ibirapuera a concretização do que o Henry Mintzberg, um dos meus gurus de gestão favoritos, costuma dizer: “O Brasil pode não se destacar nas inovações tecnológicas, mas é um celeiro de inovações sociais. E é disso que o planeta vai precisar cada vez mais”.

Ontem foi a entrega do Prêmio Trip Transformadores, inventado em 2007 pela revista Trip. Foram 12 premiados, todos legítimos entregadores do que o título acima promete: todos ajudam as pessoas a fazer upload antes de fazer download. A frase é do Claudio Prado, fundador da ONG Laboratório Brasileiro de Cultura Digital e, lógico, um dos transformadores.

Vou dar uma palinha do que rolou. Por exemplo, na minha frente estava sentada dona Vanete Almeida, que criou uma ONG multinacional rural, a Rede LAC, de Mulheres Rurais da América Latina e Caribe. É mais ou menos assim: tem mulher vítima, tem mulher pobre vítima e tem mulher pobre rural vítima. Ela cuida dessas últimas!!! E não só no Brasil. Vocês conseguem imaginar o grau de dificuldade da missão? Eu faço só uma parca ideia. Dei um abraço tão apertado na Dona Vanete que fiquei com medo de tê-la esmagado.

Com o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, meus olhos lacrimejaram. Ele recebeu dois prêmios: o “Transformadores” e o “Vida Transformadora”. Já tinha ouvido falar um tanto do Lelé, mas acho que nunca lhe prestando a atenção devida. Nesse caso, Henry Mintzberg errou: o Hospital Sarah que ele criou em Salvador é inovação tecnológica TAMBÉM: econômico, de baixo impacto ambiental, tudo de que o século 21 precisa. Os detalhes do que ele faz são geniais, como a cama-maca (na foto). Lembrou-me de como design pode ser algo profundamente transformador. Interessante que o Lelé definiu-se como conservador, não transformador, porque ele conserva as coisas como na natureza. Biomimética pura, Janine Benyus feelings.

Eu me enchi de lágrimas mais ainda com o Dr. Sérgio Petrilli, fundador do Graac, que cuida de crianças e adolescentes com câncer. Como alguns sabem aqui, perdi minha mãe com essa doença este ano – e gastando muito em tratamento. Então, quando soube que ele e sua equipe salvam, em um complexo hospitalar que atende gratuitamente, 70% dos mais de 15 mil pacientes por ano, quase desabei. E ele começou tudo vendendo o único carro da família (mulher e dois filhos) para bancar o sonho. Põe desapego nisso. O Dr. Sérgio fez o que disse o economista Ladislau Dowbor, outro premiado: inverteu a lógica. Em vez de servir à economia/ao establishment, fez com que ela/ele servissem aos seus objetivos.

E a Marika Gidali do Stagium, então? Ela e o Decio já mereciam todos os aplausos por terem se proposto a “dançar em português” (e foi uma delícia rever fotos como a dela dançando com os índios). Mas eles criaram, não bastasse, o Projeto Joaninha, que forma jovens carentes em oficinas de dança (manjam cara de auto-estima? É isso), e o Projeto Escola, que leva 80 mil crianças das escolas públicas da periferia para ver ballet. Genial. E a Marika estava muito emocionada, com a netinha conduzindo-a ao palco, foi lindo.

Vi a Ana Moser, de quem sempre fui fãzaça, falando dos seus centros esportivos para jovens carentes, mais de 80 se não me engano. Massa ela dizendo que não era muito habilidosa no vôlei, mas que contribuiu para as equipes por que passou como podia, com sua força e esforço, e que é isso que está ensinando a moçada a fazer. Massa também foi ela dizer que esse prêmio pesa mais do que as medalhas que já recebeu, a olímpica inclusive, pelo propósito maior de seu trabalho atual. Não foi demagogia, tenho certeza.

Bom, continuando o scrolling, teve o Dandô, da favela de Antares (Angra, RJ), que faz a moçada se formar no ensino médio pela internet [seguindo a máxima de que com informação somos todos (potencialmente) iguais] e que, uia!, desde os 16 anos agita isso; hoje tem 25. Mensagem: não tem idade, não tem cultura, não tem limite algum para quem quer transformar. Jornalistas e escritores como Caco Barcellos e Cristovão Tezza, mais próximos da minha realidade, e absolutamente admiráveis, também estavam entre os premiados, junto com o sertanista José Carlos Meirelles, que dobrou a população indígena isolada no Acre e tem o sonho de criar a primeira reserva indígena binacional do mundo (Brasil e Peru). Um homem do mato, ele estava super à vontade naquela urbanidade, muito legal. E, para terminar, foram premiados Joelma e Chimbinha da Banda Calypso, “ídolos” do Chris Anderson pelo modelo de negócio alternativo ao da indústria fonográfica que criaram (que lhes rendeu 12 milhões de CDs vendidos), e que têm uma grife no Pará com um belo trabalho social.

Eu sou de uma geração que cresceu com os ideais do cinemão americano. Então, sim, eu gosto quando o Brasil dá certo e me comovo quando as pessoas superam dificuldades (com esforço e/ou criativamente) e fazem acontecer, contaminando positivamente outras vidas. Afinal, como disse o Dandô, “gota d’água não apaga fogo, mas uma cachoeira talvez apague”. Ingênua? Boba alegre? You name it. Sei que valeu o convite, Gustavo Giglio! E valeu, Trip, que supre uma deficiência da mídia nas informações desse tipo (ou não dão isso ou, quando o fazem, é de maneira dispersa e “xarope”) e que torna cool uma coisa que podia facilmente ser piegas e babaca, traduzindo (ela mesma) e viabilizando (a outros) o que eu já falei num velho post: gente boa dedicada a causa boa.

Ah! O final da cerimônia do Prêmio Trip, com o Andreas Kisser e o Edgar Scandurra tocando “Maracatu Atômico” (e suas guitarras acompanhadas de um super atabaque) e a parede do fundo do Auditório abrindo e nos deixando ver o Ibirapuera, foi de um bom gosto inenarrável.

11 Responses to “Sobre fazer upload antes de fazer download (#Trip)”


  1. Gravatar Icon 1 Denise Caceres

    Eu também estava no Prêmio Transformadores ontem, e como você, também fiquei emocionada ao ver tantas estórias de altruísmo e desprendimento e igualmente me questionei sobre “o que ando fazendo da minha vida”!
    Por isso elas são vidas transformadoras: além de modificar para melhor a vida dos que eles auxiliam diretamente, são também capazes de provocar essa inquietação nos seres humanos e os inspirarem a também começar sua própria transformação no bem!
    Foi um privilégio ter participado da premiação e ter conhecido pessoas que fazem tanta diferença nesse planeta!
    Let´s do it!

  2. Gravatar Icon 2 Gustavo Giglio (Guga)

    ow…. obrigado Dri. Sigo emocionado (e cada vez mais inspirado) bjão

  3. Gravatar Icon 3 Fabio Oliva

    Só de ler já faz um bem danado. Obrigado por transmitir a emoção de um evento desses. Melhor só estando lá e transformando junto. Mãos à obra.

    Abraço

  4. Gravatar Icon 4 erika

    Erika,
    Por favor envie para a equipe.
    Acho que vale a equipe ler.
    Douglas

  5. Gravatar Icon 5 Fabio

    Só que essa foto é de Brasília e não de salvador

  6. Gravatar Icon 6 Adriana Salles Gomes

    Ops, desculpem nossa falha! Troquei a foto, Fabio, valeu. Fazer as coisas com pressa antes de ir pro aeroporto dá nisso…

  7. Gravatar Icon 7 Adriana Salles Gomes

    E me ocorreu agora que “fazer upload antes de fazer download” é o antônimo perfeito para a frase clássica do Delfim Netto quando ministro do regime militar: “É preciso fazer crescer o bolo primeiro para depois distribuí-lo”. =)

  8. Gravatar Icon 8 Christian Micuci

    Essa frase me acompanhou o ano todo. “O que ando fazendo da minha vida” e o pior, o que ando fazendo pelos outros?
    Acredito que todos (principalemnte os brasileiros) são solidários e só precisam saber onde canalizar sua solidariedade. Com pequenos passos e com amigos com o mesmo espírito, espero começar a responder essa frase e “contaminar” outras pessoas com o meu modesto projeto o ‘Seja Solidário’, que nasceu agora em outubro, como tantos outros louváveis que existem.
    Que essas pessoas premiadas inspirem despertem outras e mais outras e que sejam iluminadas para continuarem.
    abs.

  9. Gravatar Icon 9 Christian Micuci

    Essa frase me acompanhou o ano todo. “O que ando fazendo da minha vida” e o pior, o que ando fazendo pelos outros?
    Acredito que todos (principalemnte os brasileiros) são solidários e só precisam saber onde canalizar sua solidariedade. Com pequenos passos e com amigos com o mesmo espírito, espero começar a responder essa frase e “contaminar” outras pessoas com o meu modesto projeto o ‘Seja Solidário’, que nasceu agora em outubro, como tantos outros louváveis que existem.
    Que essas pessoas premiadas inspirem despertem outras e mais outras e que sejam iluminadas para continuarem.
    abs.

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