Eu já falei aqui da revista Discover (nada a ver com o Discovery Channel). Uma revista científica com um dos melhores textos que conheço. Em sua edição de Fevereiro de 2008, que recebi só hoje, graças ao nosso glacial correio, tem uma matéria que põe por terra a badalada teoria “small world” de Stanley Milgram sobre os tais “seis graus de separação”. A teoria de 1967, não só embasa diversos livros da moda [ainda?], como The Tipping Point, mas também virou peça de teatro, filme e ainda foi satirizada no jogo Seis Graus de Kevin Bacon. Em resumo, se alguém não sabe, o que Milgram fez foi dar envelopes para 60 pessoas em Wichita. Esses envelopes deveriam ser entregues a um estranho, utilizando, para chegar até ele, apenas conhecidos dessas 60 pessoas. Em outro estudo, mais amplo, Milgram usou gente de Nebraska e Boston, para chegar a um estranho em Massachusetts. O resultado, é o que você imagina. Em nenhum caso, conforme reportou Milgram, foram necessários mais de 6 conhecidos. Em muitos casos, segundo ele, foram necessários muito menos…apenas dois ou três. Daí para estrapolar para o conceito de que qualquer um de nós está a apenas seis graus de um velho amigo de escola ou do Papa, foi um pulinho.
O fato é que a idéia de que vivemos numa aldeia, onde estamos quase todos de mãos dadas, ou que “o mundo é pequeno”, habita nosso imaginário. E a idéia dos seis graus de separação, pegou.
Mas infelizmente, como comprovou Judith Kleinfeld, uma professora de psicologia da Universidade do Alaska (também, né…no Alaska!), a teoria não se sustenta. Como ela descobriu? Bem, a história é longa e você pode ler a íntegra da matéria aqui. Mas em poucas palavras, Kleinfeld teve acesso ao material original de Milgram, que foi doado a Universidade de Yale após sua morte. Após estudar a fundo o trabalho, descobriu que muitos dos resultados que Milgram reportou, simplesmente não eram verdadeiros. Por exemplo, do estudo original, apenas 3, dos 60 envelopes, chegaram ao destinatário. Além disso, Kleinfeld, ex-seguidora das teorias de Milgram, foi atrás de mais experimentos sobre o assunto e encontrou apenas dois. Um deles, do próprio Milgram. Kleinfeld alega ainda que a distribuição dos envelopes não era randomica e utilizava indivíduos de classes privilegiadas, que possuem, ao menos teoricamente, networks de relacionamento mais amplas. A matéria conclui com duas questões divertidas:
Se realmente estivessemos a apenas seis graus de separação, porque Bin Laden é tão difícil de encontrar?
E por que é tão sedutora a idéia de que estamos todos conectados?
UoD.

