04/07/2009   RSS posts: 9.877comentários: 26.095 updaters: 431
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Updater na ExpoManagement 2008 - Muhammad Yunus

“No dia 1º de janeiro de 2031, os jornais de  Bangladesh publicarão, na primeira página, um anúncio oferecendo uma recompensa de US$ 1 milhão para quem achar uma pessoa pobre no país. E ninguém conseguirá ganhar esse dinheiro. Esse é o meu sonho.” Foi assim que Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2006 por seu Grameen Bank e por todo o projeto de microcrédito sem exigência de garantias, encerrou sua emocionante palestra no palco principal da ExpoManagement, o megaevento de três dias com mais de 4.000 executivos e empresários que a HSM está promovendo em São Paulo. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.

Ele disse isso de outra maneira também. Disse que o objetivo que o mundo deve perseguir é que a pobreza vire peça de museu em 2050, como os dinossauros viraram. E que as crianças tenham de visitar um museu para saber o que é isso. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.

Disse ainda que os seres humanos não são máquinas de fazer dinheiro. Que o lado “fazer dinheiro” é nosso lado egoísta, contemplado nas empresas com fins lucrativos, e é apenas um dos dois lados que nós temos. O outro é o lado altruísta.  Disse que precisamos inventar um tipo de empresa para contemplar também esse lado: a empresa social, feita para servir os outros, mas sistematizada como uma empresa. Onde os investidores recuperem o dinheiro investido, mas não lucrem além disso. Onde o lucro seja reinvestido no negócio social. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.

Ele contou sobre a empresa social que montou numa parceria do Grameen Bank com a Danone na França. Eles produzem iogurtes com os nutrientes complementares (ferro, zinco etc.) para fazer com que uma criança subnutrida supere todas as suas carências em dez meses se tomar apenas dois potes por semana. A um preço baratíssimo. Estão fazendo isso com milhares de crianças, como protótipo, para depois fazer com milhões. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.

Ele convidou cada um da platéia a desenhar uma empresa social. O protótipo. E a disponibilizá-lo na internet. Pode ser um projeto para tirar cinco desempregados do desemprego. Ou criar uma bolsa de valores social. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.

Ele contou como uma das empresas do Grupo Grameen (nasceu como banco, virou um grupo de várias empresas), de telefonia celular, está buscando transformar as mulheres dos vilarejos de Bangladesh em “internet ladies”, prestadoras de serviços de internet aos cidadãos. Elas eram ”phone ladies”, prestavam serviços telefônicos para os vizinhos, até que todos os habitantes de Bangladesh, por conta desse sistema, conseguiram ter seu próprio telefone. Assim vai se democratizando o acesso à informação, além do acesso ao crédito. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.

Yunus, um economista formado nos Estados Unidos que dava aulas na universidade de Bangladesh, começou a se envolver com tudo isso há cerca de30 anos quando conheceu, num vilarejo, 42 pessoas desesperadas e passando fome porque deviam, juntas, US$ 27 a agiotas. Pagou do bolso dele esse valor e a felicidade que provocou o levou a querer fazer muito mais pelas pessoas. Ele concluiu que é perfeitamente possível eliminar a pobreza do mundo. Ela tem se reduzido 2% ao ano em Bangladesh, o que significa que estará pela metade em 2015 e poderá chegar a zero em 2030. Resultados palpáveis e sem depender de governo para nada (”porque quando política se mistura com dinheiro, a transparência fica comprometida”). Tudo iniciativa privada, de pessoas acionando seu lado altruísta tanto quanto seu lado egoísta. Eu saí querendo acreditar que é possível. A platéia de gestores de empresas aqui também está querendo apostar nisso. E vocês?

Update 1: o podcast do Yunus

Update 2: dêem uma olhada nessa empresa Dois e Meio, que se propõe ajudar a construir empresas sociais no Brasil.

7 Responses to “Updater na ExpoManagement 2008 - Muhammad Yunus”


  1. Gravatar Icon 1 Mateus

    Perfeito Adriana.
    Excelente texto. A frase que o Yunus fala ”quando política se mistura com dinheiro, a transparência fica comprometida”, é verdadeira. Aquele bordão de que todos fazendo um pouquinho, mudaremos o mundo, depois desse texto, dá pra acreditar! Eu, que vivo buscando lucro (pros outros), aplaudo de pé!

  2. Gravatar Icon 2 Alexandre

    Adriana,
    Desculpe a sinceridade, mas precisamos de um líder. Ou líderes.
    Em tempos de “Yes, We Can”, precisamos de alguém que nos lembre à todo momento o “começo, meio e fim”.
    Parece livro de auto ajuda - “te ajuda enquanto você lê”; depois, cai no esquecimento.
    Que os homens que perseguem lucros, agora com seus modelos em mãos, possam colocá-los em prática.
    Porque, me desulpe novamente, “yes, we can”.
    A.

  3. Gravatar Icon 3 Jester

    “gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé” = “quando política se mistura com dinheiro, a transparência fica comprometida”

  4. Gravatar Icon 4 Adriana Salles Gomes

    É isso aí, Mateus!;)
    Justamente, Alexandre: o Yunus não falou “Yes, we can”, porque ele falou algo ainda mais forte: “Yes, we did”. Ele já fez isso. E, portanto, ele é um tipo de liderança, sim, só que diferente daquele com que estamos acostumados, menos óbvio. Mas o Obama também é menos óbvio como líder, pensando bem. Fizeram aqui na Expo uma análise do discurso do Obama que eu achei muito interessante (eu que tinha achado que o discurso não tinha ficado TÃO forte quanto os grandes discursos da história): a análise foi que o discurso do Obama foi propositalmente modesto por ele não ser da turma da leadership, mas da turma da communityship (não da turma da liderança mas da comunidança, numa tentativa de transportar o neologismo para o português). Acho que tem a ver.

    Jester, não sei se vc entendeu bem o que eu escrevi. O Yunus acha que precisamos pensar como empresa para erradicar a pobreza do mundo - e gerenciar como empresa. Ele só observa que a motivação desse tipo de empresa (social) não deve ser lucro. Então, gestor, para ele, é bem´-vindo e não é sinônimo de política. (E eu fiquei feliz pelo fato de os gestores também o considerarem bem-vindo!) Na visão do Yunus, gestor e empresa são setor privado, são sociedade, precisam fazer parte do jogo e ajudar nessa tarefa de pensar em soluções para a pobreza como uma empresa pensaria. Já política são os governos, as instituições transnacionais como ONU, Banco Mundial etc.; ele é tão contra que recusou dinheiro do Banco Mundial, por ex.

  5. Gravatar Icon 5 Jorge Carvalho

    Aqui está o áudio da entrevista que foi feita para a ManagemenTV http://podcast.hsm.com.br/wp/podpress_trac/web/122/0/muhammad_yunus.mp3

  6. Gravatar Icon 6 Beto Ghidini
  7. Gravatar Icon 7 Adriana Salles Gomes

    Muito bom saber de vcs, Beto, vou acompanhar!

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