Não posso deixar junho acabar sem falar sobre o assunto. São muitos os jornalistas inconformados com o fim da obrigatoriedade do diploma universitário para exercício da profissão. Mas eles deviam parar para pensar: nem o fato de ter sido o Gilmar Mendes a liderar essa decisão conseguiu pôr a sociedade a favor do diploma obrigatório – e olha que o Gilmar é bom nisso. Por quê? Nem o fato de os donos dos meios de comunicação terem apoiado em bloco a decisão do STF deixou a população de pé atrás com a medida. Por quê?
Do outro lado, acho que os que saíram pulando de felicidade por aí também deviam parar para pensar, porque a questão não é tão simples assim. A conversa toda em torno da derrubada da obrigatoriedade pelo STF parece ter saído de um Circus Theory Generator, aquele programinha de internet que em breve será criado para institucionalizar a brilhante Teoria do Circo do updater Andre Felipe:
Jornalismo -> Curiosidade
Curiosidade -> Todo mundo tem
Todo mundo tem -> Todo mundo consegue fazer
Todo mundo consegue fazer -> Não precisa estudar
Não precisa estudar -> CIRCO
Brinquei e simplifiquei, lógico, mas a questão de fundo é essa mesmo. Existe um conhecimento específico de jornalismo a ser aprendido? Ou não? Porque, se não existe, ou se for algo meramente técnico que se aprende “on the job”, acabou toda e qualquer discussão: que venham as melhores pessoas com o melhor conhecimento de cada área e a qualidade da informação só vai melhorar. Mas vai mesmo?
Há algo específico na profissão, sim, mas não é conhecimento. Uma parte disso é técnica. Outra parte é tática/estratégica. Geralmente ambas se aprendem mais no dia-a-dia do trabalho que na universidade: como conseguir as melhores fontes e não se tornar refém delas; como extrair a essência das informações e transmiti-la em poucas palavras e de maneira compreensível; como ser minimamente generalista para que nenhuma notícia se encerre no seu próprio nicho de realidade e assim o público possa enxergar a “big picture”; e por aí vai. É por isso que o Silvio Meira tem escrito em seu blog, e com razão, que jornalismo é profissão-meio como matemática, não profissão-fim como medicina, e portanto dispensa a obrigatoriedade do diploma.
Mas existe uma terceira perna nesse corpo do específico e ela é, na falta de palavra melhor, uma missão. Algo como um juramento-de-hipócrates do jornalismo, mas que ninguém nunca jurou realmente. Trata-se de uma aliança selada com a sociedade, que pressupõe representá-la acima de tudo e nunca compor com o patrão ou com os poderosos; trata-se de um drive e de um senso crítico que fazem você insistir em conseguir uma informação sem medo de ser desagradável ou pruridos de ser inconveniente, sabendo que será considerado o chato mor ou que sofrerá ameaças; trata-se de um senso de responsabilidade e consequência tamanho família, porque se pode destruir uma vida num piscar de olhos (e injustamente) se não se trabalhar direito a apuração e checagem de informações. Não é moral ou ética, vejam bem; é um compromisso maior. É algo muito mais fácil de desenvolver fora das pressões da redação e do relógio, e coletivamente, quando ainda se é estudante (embora tenha de ser renovado diariamente), em matérias que estimulem debates e filosofadas, em reportagens de laboratório devidamente analisadas.
E, então, como fica? Bom, na prática, esse compromisso nunca foi bem cimentado nas faculdades de jornalismo e, de uns tempos para cá, está cada vez mais ralo, porque o tanto da grade curricular dedicado às questões técnicas –e, em menor escala, às táticas– só aumenta. (Aliás, nem o juramento de hipócrates anda segurando a onda lá na medicina: há cada vez mais médicos que trabalham para o plano de saúde/hospital em vez de trabalharem para o paciente). Como perdido por perdido, truco, melhor fazer o que é correto. E, estou segura, o correto é desregulamentar, até porque menos regras são mais viáveis de cumprir, e principalmente porque a concorrência maior e mais diversificada elevará a qualidade no longo prazo. Precisamos urgentemente disso, como nação.
Mas, sem ingenuidade; é evidente que vamos pagar um preço. Os riscos são claros no curto prazo: redução salarial porque a oferta de mão de obra, que já é grande, vai decuplicar; por causa da redução, provável atração de gente menos qualificada num primeiro momento; menor independência ainda em relação aos patrões; um possível circo técnico-tático-estratégico dos novos profissionais até se estabelecerem outras rotinas e parâmetros. Isso seria razão suficiente para segurar o diploma? Na minha opinião, não. É o eterno dilema da vida da gente. Quando as decisões que sabemos ser corretas trazem alguns resultados indesejáveis, adiamos a tomada dessas decisões, seja a reforma da Previdência, seja guardar dinheiro na poupança, seja derrubar a exigência de certos diplomas. Não deveríamos.
Minha esperança é de que os efeitos acima descritos se limitem ao curto e ao médio prazo. E que no longo prazo os cursos de jornalismo melhorem muito para garantir demanda e que atraiam as melhores cabeças por conta disso. Como acontece na Inglaterra, por exemplo. E que cada jornalista tenha pelo menos dois cursos, ou mais, aumentando muito o nível da profissão (vale observar que os jornalistas ingleses e americanos têm formação MUITO melhor que a nossa). E que a remuneração seja condizente então. E que a sociedade valorize a qualidade. (Estou querendo demais?)
Embora pareça que o jornalista já estava com a corda no pescoço e que acabaram de chutar o banquinho, isso não é verdade. Esse profissional anda acuado mesmo, porque a profissão vive um momento de desprestígio e quebra de paradigmas por conta desta mídia digital aqui, da baita nova interatividade e da mistura cada vez maior com o entretenimento, entre outras coisas, mas o banquinho ainda está lá. E ainda pode aparecer o Robin Hood atirando a flecha que romperá a corda da forca.
Outra coisa: o Gilmar Mendes errou; jornalista não tem nada a ver com cozinheiro, inclusive porque jornalismo não tem a ver com arte. Mais feliz é o paralelo com o cientista: uma série da cursos (e até o autodidatismo) pode levar uma pessoa a ser cientista, mesmo havendo um método a ser aprendido (técnico, tático, estratégico) e mesmo havendo um sentido maior na busca de uma descoberta (a missão). E para nossa sorte talvez, no caso do jornalismo, um dos cursos de acesso (o melhor deles, se a sorte for grande de fato) até pode ser o de jornalismo.
