O Professor e o peixe

O Professor e o peixe O Professor e o peixe

Acordei pensando (de novo) nos nossos M&M’s mentais.

Passamos o dia inteiro lendo um monte de pedacinhos de coisas, só para esquecer de tudo logo em seguida. É a maldição da timeline. A gente acha que é informação, mas na verdade é entretenimento.

E foi aí que lembrei da história do professor Louis Agazzis e seu peixe.

O professor e o peixe

O Professor e o peixeO professor Agazzis era um zooólogo suíço, que dava aulas em Harvard no final do século 19. Era a maior autoridade no assunto na época. Era um apaixonado pelas criaturas da natureza e deixou dezenas de estudos científicos publicados e estudados até hoje.

Um dia, um jovem estudante recém-chegado a Universidade (Samuel Scudder) procurou o professor Agazzis e disse que seu sonho era ser seu pupilo.

“Certo. Vamos ver se isso é possível. Sente-se naquela sala. Eu já volto”

Depois de um tempo o professor Agazzis voltou com um… peixe morto. Colocou-o sobre a mesa e falou apenas isso:

“Olhe para o peixe. Daqui a pouco eu passo de novo”.

Samuel não entendeu muito bem, mas se ajeitou na cadeira e começou a olhar atentamente o peixe. Dez minutos depois ele já sabia tudo. Tamanho, peso, cheiro. Descobriu até que a boca não ficava fechada de jeito nenhum, sempre abria de novo. E com a missão cumprida, ficou esperando pela volta do professor. O que só aconteceu uma hora depois.

Agassiz não ficou nem um pouco impressionado. Nem com a coisa da boca.

“Olhe mais. Muito mais. Volto daqui a pouco”


Uma tarde com o peixe

Desta vez, Samuel foi abandonado com o peixe durante a tarde inteira. Não podia imaginar o que mais faltava enxergar. Consumido pelo tédio, resolveu pegar um lápis e papel e tentar desenhar aquele pobre coitado de olhos arregalados. Zoólogos adoram desenhar animais em caderninhos, vai ver essa isso que faltava. E realmente o truque funcionou. Samuel conseguia enxergar agora muito mais detalhes. As escamas cuidadosamente sobrepostas, as ranhuras no rabo.

Quando Agassiz abriu a porta, Samuel marcou seu primeiro gol falando logo de cara:

“Agora eu vi o quanto tinha visto pouco da primeira vez”

Agassiz abriu um sorriso e mandou Samuel continuar olhando. Não chegou nem a entrar na sala. Disse que havia encomendado um lanche para eles e que retornaria no final do dia para concluirem a atividade.


Um fim de dia com o peixe

Já era noite quando Agassiz retornou com os sanduíches para encontrar uma mesa – e um Samuel – completamente cobertos e sujos de restos das entranhas do peixe. Cansado, porém com a excitação de um alien explorando o planeta, Samuel enxugou o suor da testa com o antebraço e começou a contar tudo como se Agassiz não soubesse nada daquilo.

“Rá! Olha só isso! Os dois lados são absolutamente simétricos, e os orgãos são pareados! E aqui, o intestino se acomoda de um jeito que…”

Gastaram o resto do tempo trocando as maiores intimidades do peixe.


E você nessa história?

Nesta história tem dois componentes importantes, que talvez sejam exatamente os que nos faltam hoje em dia: o tédio e o tempo dedicado a apenas um único assunto.

O tédio, paradoxalmente, tem função ativa: ligar a curiosidade. E o tempo, junto com a emoção, é o que faz as coisas imprimirem direito no seu cérebro.

Quando você rola um timeline pulando de coisa em coisa e gastando 1 ou 2 minutos em cada uma delas, é bem óbvio que você está em modo M&M. Entretenimento passível de esquecimento sumário. Não acredita? Responde rápido então: quais foram as 3 coisas mais interessantes que você leu ontem? Faça essa pergunta para você mesmo toda noite e prepare-se para pirar.

Não tem nada de errado em usar conteúdo como entretenimento. Mas não dá para achar que você tá absorvendo ou aprendendo alguma coisa de verdade. E alguns assuntos são interessantes demais para você deixar passar.

Tem que olhar mais, muito mais. Tem que enxergar além do tamanho e peso. Tem que perceber que é preciso investir um tempo maior.  E as vezes, só pegando o estilete e abrindo a barriga mesmo.

Agassiz, naquela noite, se despediu de Samuel dizendo:

“Fatos são coisinhas bobas se não forem conectados com algo maior”

Olhe seu peixe.

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