Qualidade imprescindível: Visão clássica, ações modernas

Interior de uma grande casa de shows iluminada. Interior de uma grande casa de shows iluminada.

A Europa é um continente incrivelmente rico — economicamente, religiosamente e, claro, culturalmente. Sua história precede a do Brasil por muitos séculos. Temos alguns colaboradores da nossa empresa na Inglaterra e em Portugal, o que nos permite compreender um pouco melhor esse universo europeu. Claro, de forma superficial, comparado a alguém nato no continente. Por outro lado, temos a vantagem de olhar de fora, sem o etnocentrismo de quem se limita à própria perspectiva.

Culturalmente, a rica “tapeçaria” da Europa não pode ser resumida apenas à história de suas cidades e comunidades. Foi na construção e no desenvolvimento dessas cidades, entre revoluções, protestos, incêndios e tudo mais que se possa imaginar, que surgiram lugares icônicos como o Palais Garnier, em Paris, ou o Royal Albert Hall, em Londres. Os “fogos” do passado foram o berço de um polo cultural muito forte nesta parte do mundo.

O Renascimento na França, inspirado por influências italianas, floresceu especialmente após o fim da Guerra dos Cem Anos. Esse foi um dos pavios que permitiu que muitas instituições musicais e teatrais se abrissem ao público, permeando a população com as belezas da arte em sua forma mais refinada.

Recentemente, realizamos um estudo sobre casas de música e teatro na Europa, buscando entender como elas se comportam como marcas. O resultado, perdoem-nos, não foi surpresa — além de serem pontos de referência para outras instituições ao redor do mundo, lugares como o Royal Albert Hall ou a Ópera de Viena desempenham um papel muito especial como portadoras e bastiões de marcas icônicas: respeitam o passado, mas sempre avançam.

Isso nos faz pensar que, com tanta história, elas poderiam se manter estáticas, alimentando-se exclusivamente das glórias de outrora. Mas não! Continuam a se reinventar, oferecendo programas, cursos para músicos e artistas, novos shows e repertórios. Sempre se esforçando para engatar a marcha do século 21 — uma época veloz, líquida e apressada.

Um bom exemplo, além dos já mencionados, é o Southbank Centre, em Londres. Criado a partir do “Festival of Britain” (pós-Segunda Guerra Mundial), o centro cresceu significativamente durante o século 20 e, no século atual, manteve-se relevante por meio de diversos movimentos — um deles, a infusão de novos estilos de música e arte além da música clássica, atraindo públicos variados. A música clássica, naturalmente, continua suprema. Mas o importante é notar que o Southbank Centre conseguiu renovar sua imagem sem desrespeitar uma história que merece reverência.

Estamos falando de “vetores opostos”: de um lado, a admiração e a preservação do passado; do outro, a visão e a ação para inovar e se manter relevante. Marcas que conseguem equilibrar isso são sábias — e essa sabedoria conquista audiências, que sabem que não haverá movimentos bruscos nem desatualizações. O passado demanda reverência, produto natural da sobriedade. O futuro demanda execução, fonte inesgotável de inquietação. É assim que passado, presente e futuro se entrelaçam — olhares fundamentais e necessariamente concomitantes para a concepção de marcas bem-sucedidas.

“Endurecer sin perder la ternura jamás”. De certa forma, essas marcas culturais da Europa endureceram, criando os calos necessários para se manterem relevantes, mantendo, ao mesmo tempo, sua ternura, oriunda de mil e uma histórias. Talvez o que a Europa nos ensine seja, de fato, olhar para trás e caminhar para a frente. Uma lição emancipatória para marcas, e sobretudo, para os gestores dessas marcas.