Stranger Things é um sucesso estrondoso.
E um dos fatores que impulsionou o sucesso da série foi, sem dúvida, as referências à cultura pop dos anos 80.
Essas referências vão muito além das bikes BMX, dos walkie-talkies, da Kate Bush e da Winona Rider.
Os anos 80 começam antes mesmo da primeira cena.
A sequência de abertura do título, com sua tipografia marcante revelando-se lentamente, combinada com um sintetizador que remete diretamente aos sons de filmes clássicos de ficção científica dos anos 1980, cria instantaneamente a sensação de que fomos transportados para outra época.
E por que isso acontece?
Muito por causa da escolha da fonte.
Antes das aventuras de Hawkins, as aventuras tipográficas

A tipografia escolhida para o logo do filme é a ITC Benguiat, criada em 1977 pelo lendário designer e tipógrafo Ed Benguiat a pedido da International Typeface Corporation.
Ed Benguiat já era uma referência na Tipografia e Design da época, tendo desenhado mais de 600 fontes e criado alguns logos icônicos, como o da Ford e o da revista Playboy, entre outros projetos editoriais importantes.
A fonte criada por ele tem contraste marcante através das sua serifas, é exagerada e teatral, com personalidade inspirada nos cartazes publicitários da Art Nouveau.
Graças a essas características, a Benguiat foi amplamente usada nos anos 80 em capas de livros de suspense, terror e aventura. Apareceu em diversas edições de Stephen King, ajudando a definir visualmente o gênero e também na série infanto-juvenil Choose Your Own Adventure, ligada a mistério, fantasia e imaginação.

Esse uso recorrente transformou a Benguiat em um verdadeiro código visual da época. Bastava ver a tipografia para imaginar o tipo de história que vinha pela frente. Era uma letra associada a tensão, aventura e mundos fora do comum.
A criação do logo não aconteceu por mágica
Os irmãos Duffers, criadores da série, queriam que a abertura evocasse diretamente a estética dos livros e cultura dos anos 80.
Para isso, enviaram um pacote com livros de suspense como referência para a Imaginary Forces, um estúdio de design de Los Angeles que tem diversas aberturas de filmes e série em seu portfólio, entre eles a abertura de Mad Men e projetos marcantes para séries como True Detective e Westworld.
Apesar de parecer uma escolha óbvia, a Benguiat não apareceu nos primeiros estudos de logo da série. Várias fontes foram testadas para evocar o estilo pulp sci-fi e horror dos anos 80 até se chegar à ITC Benguiat.



Depois que a versão em preto e branco do logo foi aprovada, a Imaginary Forces adicionou contornos vermelhos às letras, destacou o “S” e o “R” maiores (referência explícita às capas de livro do Stephen King) e incluiu barras animadas que aparecem na sequência final do título.

Como aplicar a força de Stranger Things no meu trabalho?
Seja você um designer ou diretor de marketing, o importante é entender que toda escolha deve ser embasada. Cores, ilustrações, imagens, fontes, tudo carrega significado e histórias.
Em um trabalho de design bem feito, nada é aleatório.
A Benguiat foi usada porque carrega memória cultural.
Ela conecta a série diretamente ao imaginário gráfico dos anos 80 e prepara o espectador emocionalmente antes mesmo da primeira fala.


Conhecer a história de uma fonte muda completamente a forma como a usamos. Tipografia não é só estética. É design, cultura, arte e narrativa. E, quando bem escolhida, ajuda marcas e projetos a contar histórias mais fortes, coerentes e memoráveis.
Fun Fact (Bônus)
Ed Benguiat, que tinha 88 anos quando a série foi lançada (faleceu em 2020), não conhecia a série, mas havia notado um aumento significativo nos seus royalties, sem saber o motivo.
Depois de assistir à abertura, disse em entrevista ao jornal The Telegraph, que tinha gostado muito. “Ela se funde, se move para dentro e para fora, é muito boa. É bastante agradável e confortável. E, ao mesmo tempo, empolgante”.
Sem saber, tinha ajudado a criar mais um clássico.