Na minha época – digo ajeitando os óculos -, “ansiedade” era o nome do sentimento que você experimentava quando estava prestes a lidar com um momento que queria adiantar, chegar logo. Estar ansioso era uma condição estritamente ligada ao porvir.
Existia claramente um sentido, uma construção, uma relação causal: a criança não consegue dormir porque está ansiosa esperando a chegada do Papai Noel. O adolescente está roendo as unhas porque está ansioso às vésperas do primeiro encontro. O adulto, antes de uma entrevista de emprego decisiva, sente seu coração acelerar cada vez que o ponteiro do relógio se movimenta: ansiedade. Assim que era, assim que foi.
E depois, nunca mais. Hoje, “ansiedade” abrange tantos infinitos cenários que não denota mais nenhum significado concreto. Qualquer desconforto emocional, dos mais severos aos mais brandos, tem sido popularmente caracterizado como ansiedade. Esses fenômenos de banalização dos termos sempre geram um pileque comunicativo bem custoso e, por vezes, irremediável.
Terrivelmente gasta, esgotada, a palavra não consegue mais dar conta do recado. “Deve-se criar vocábulos mais específicos para expressar certas emoções”, diria o óbvio. Somos plenamente capazes disso. Não subestime nossa capacidade semântica.
As palavras não nasceram todas como as conhecemos hoje. Um dia, pois, alguém disse que já havia um número suficiente e resolveram, por bem, encerrar a atividade de criação. Tirando um teimoso ou outro, um Guimarães Rosa ou outro, o que nos sobra de fato em unidade vocabular cabe num dicionário. Neologismo é coisa de poeta.
A nós, os homens comuns, o que resta é uma infinidade de repetições sonoras que deixam muito a desejar. Elas funcionam, é claro, é através delas que as pessoas respondem se vão pagar no crédito ou no débito, choram ou riem, o garçom traz mais gelo e o narrador de futebol descreve aquele lance fantástico.
Mas será que manifestações tão distintas, em circunstâncias tão distantes da original, podem mesmo continuar a atender pelo mesmo nome?
Ou um dia nos daremos conta de que quanto mais desmembrarmos essas palavras sólidas como pedra, que muitas vezes encaixamos à força em construções que não cabem, mais próximos estaremos de compreender o que o outro quer dizer?
Obviamente, quanto mais palavras temos ao nosso alcance, mais somos capazes de expressar o que sentimos, o que pensamos.
Não me espantaria se, num futuro, relatassem sobre nosso povo: “comunicavam-se de maneira muito primitiva, poucos verbetes, mas já não escreviam mais em cavernas”.
Todo estado é, de certa forma, um estado rudimentar. Até nos darmos conta dele.