O mercado publicitário foi exposto no volume máximo

Carros de som estacionados em frente as maiores agências do país, mensagens de despedida constrangedoras e um recado claro: operamos num modelo que já morreu.

Não foi um post.
Não foi um manifesto em PDF.
Não foi um vídeo bonito (feito com IA) falando sobre o futuro da criatividade.Foi um carro de som nostálgico.
Parado no meio da rua.
Em frente às maiores agências do país.

Mensagens de despedida tocaram em volume máximo, com apelidos carinhosos, ironia e aquele constrangimento típico de quando um relacionamento acaba e alguém resolve dizer tudo em público. Não por raiva. Não por revanche. Mas porque fingir que está tudo bem exige mais energia do que encarar e declarar o fim.

A ação não anunciava apenas algo novo. Ela anunciava um grande término.

Eis aqui o divórcio público mais cafona que já existiu. O fim da paciência com estruturas infladas, processos engessados, discursos reciclados e relações profissionais que sobrevivem mais por inércia do que por resultado. O fim do teatro corporativo que chama desgaste de “desafio”, excesso de controle de “governança” e ego de “cultura”.

O mercado publicitário foi acordado à força com uma verdade dita na porta das agências, mas que não é novidade nenhuma nos corredores. O desconforto só foi materializado e ganhou uma locução sexy, com notas assumidas de breguice. O que já era sussurro virou campanha. E campanha virou o gesto inaugural de uma companhia criativa.

Durante muito tempo, o setor tratou seus próprios problemas como questões internas, quase íntimas. Clima, motivação, burnout, liderança. Mas há um ponto em que isso deixa de ser subjetivo e vira matemática simples. Ainda mais quando, dia após dia, crises, fusões, aquisições, demissões e descontinuações ocupam mais espaço no trade publicitário do que “novas campanhas” e “contratações”.

A conta não fechava fazia anos. Estruturas pesadas custam caro. Camadas e burocracias mais lentas que o setor público. Processos engessados que drenam energia e criatividade. E, no fim do dia, quem paga essa conta não é a agência, ou, mais especificamente, a mão de obra dentro dela. É o cliente.

Talvez seja isso que torne a ação tão incômoda. Ela não ataca pessoas, marcas ou nomes específicos. Ela expõe um modelo que se mantém mais por hábito do que por eficiência. Um modelo defendido como se fosse inevitável, acima de qualquer suspeita, enquanto, na prática, já não entrega o que promete.

A metáfora do divórcio não é gratuita. Relações longas raramente acabam por falta de afeto. Elas acabam por insistência. Por apego ao que um dia funcionou. Por medo de mudar. Por conforto. Por falta de coragem de admitir que seguir junto custa mais do que se separar.

As mensagens dos carros de som brincavam exatamente com isso. Despedidas exageradas, apelidos íntimos, frases que misturam carinho e desgaste. Tudo propositalmente público. Porque términos importantes raramente são discretos. E porque, às vezes, é preciso dizer em voz alta o que todo mundo já sussurra no zap e nas planilhas.

A BeHumble Creative Company escolheu lançar sua operação desse jeito. Não para explicar por que faz diferente, mas para mostrar. Sem pedir licença. Sem apresentação institucional. Sem prometer salvar o mercado. Apenas deixando claro de que modelo decidiu se afastar.

Claro que, no feed e nos releases, aparecem alguns RTBs: atuação 100% remota, times seniores na linha de frente, menos camadas, menos ruído e mais responsabilidade direta. Uma operação que vai de São Paulo a profissionais em cidades como Barcelona e Pequim, sem romantizar distância, mas entendendo que talento não mora, nem precisa dividir, o mesmo CEP.

Tecnologia e inteligência artificial fazem parte do processo, claro. Mas como meio, nunca como substituto. Criatividade continua sendo humana, porque marcas não precisam apenas de eficiência operacional. Precisam de leitura cultural, sensibilidade, contexto e coragem, coisas que não se automatizam.

A reverberação da ação seguiu a mesma lógica. Influenciadores foram convidados a interpretar e criar o que é a @behumble.cc a partir de seus próprios repertórios, sem briefing fechado, sem texto pronto, sem moldura artificial. Conteúdos nativos, autorais, do jeito de cada um. Porque, se a proposta é ser mais humana, não faria sentido engessar a mensagem logo no primeiro movimento.

Essa ação não busca aprovação, consenso ou simpatia. Ela existe para marcar posição. Para deixar claro que a agência não nasceu para se encaixar no mercado publicitário atual. Que não veio repetir padrões nem se alimentar de velhos vícios. Nasceu para se afastar conscientemente de um modelo que insiste em sobreviver mesmo depois de ter perdido o sentido.

No fim, o carro de som não foi um ataque.
Foi, como adoram falar nas reuniões, um heads up.