A AlmapBBDO lançou o SYNTHS, uma plataforma inovadora de dados sintéticos que utiliza a inteligência artificial (IA) do Google, especificamente o modelo Gemini 2.5. Esta ferramenta visa transformar o processo de criação de campanhas publicitárias, permitindo simular opiniões de diversos perfis de consumidores em tempo real, o que gera insights valiosos para orientar estratégias criativas.
O SYNTHS possibilita a criação de personas sintéticas, que representam uma variedade de perfis demográficos e comportamentais. Isso permite que a equipe criativa receba feedback contínuo durante todo o desenvolvimento das campanhas, ao contrário do modelo tradicional que se baseia em pesquisas apenas no início e no final do processo. A plataforma já demonstrou eficácia em testes, apresentando recomendações semelhantes às obtidas com consumidores reais.
Desenvolvida com o suporte do Google, a ferramenta é uma resposta à crescente tendência do uso de dados sintéticos em diversas áreas, prometendo acelerar os ciclos de desenvolvimento e ampliar as informações disponíveis para a tomada de decisões nas campanhas publicitárias.
O que é o SYNTHS
O SYNTHS é, essencialmente, uma plataforma alimentada por IA generativa (via VertexIA, da Google Cloud), capaz de simular a opinião de diferentes perfis demográficos em tempo real. Ele funciona com estímulos em texto, imagem e vídeo, reagindo a peças em desenvolvimento — de roteiros a mockups finais.
Em vez de consultar consumidores reais, o planner agora pode “perguntar” a um consumidor sintético o que ele achou da ideia. E o feedback vem instantaneamente.
“É como ter validações em tempo real ao longo de todo o processo criativo”, explicou João Gabriel Fernandes, CSO da AlmapBBDO.
O que muda na prática?
Antes:
- Pesquisa exploratória no início do projeto.
- Sem feedback durante a criação.
- Pré-teste ao final, com risco de retrabalho caro.
Agora, com SYNTHS:
- Feedback contínuo durante toda a jornada.
- Validação de conceitos ainda em estágio embrionário.
- Testes de variações criativas sem precisar montar um focus group.
A promessa é clara: redução de custo, agilidade e escala.
Economia
Sim. Um focus group tradicional pode custar entre R$ 30 e R$ 50 mil, considerando recrutamento, moderação, gravação, análise etc. Já o SYNTHS entrega algo equivalente a uma fração desse custo, e em segundos.
Além disso, segundo a McKinsey, o uso da IA pode acelerar o desenvolvimento de produtos em até 60%. Já a Gartner estima que até 2027, metade dos dados usados por IA serão sintéticos.
O mercado caminha para esse modelo.
E a confiabilidade?
Daniel De Tomazo, head de estratégia da agência, afirma que os testes comparativos feitos com SYNTHS chegaram às mesmas conclusões que pesquisas reais.
Mas… eles não divulgaram metodologia, tamanho de amostra nem margem de erro. Isso importa. Muito.
Aline Moda, do Google, garante que o Gemini traz “consistência e confiabilidade” às simulações. Porém, é importante destacar que:
- A IA reproduz os dados com os quais foi treinada.
- Isso significa que pode replicar vieses sociais históricos, como machismo, racismo, homofobia ou visões classistas.
- Consumidores sintéticos podem ignorar nuances humanas, como contradições, mudanças de opinião, humor, sarcasmo ou contexto emocional.
Ou seja: consumidores sintéticos não são consumidores reais. E nunca serão.
Vantagens e riscos
✅ Pontos fortes
- Velocidade absurda: insights imediatos.
- Redução de custos: testes a custo simbólico.
- Iteração criativa constante: mais agilidade no processo criativo.
- Escalabilidade: testar dezenas de versões sem esbarrar no orçamento.
⚠️ Pontos de atenção
- Viés nos dados: se a base é tendenciosa, o “consumidor sintético” também será.
- Falsa sensação de validação: decisões podem ser tomadas com base em simulações irreais.
- Exclusão de minorias: perfis não-hegemônicos podem ser mal representados.
- Complexidade humana ignorada: pessoas são mais contraditórias do que a IA consegue prever.
Isso substitui a pesquisa quali?
Não. E a própria AlmapBBDO sabe disso. O SYNTHS não é um substituto, mas um complemento.
A diferença está no uso: onde antes era inviável testar a reação a um esboço de ideia por questões logísticas, agora é possível simular essa reação e ter uma direção. Um “calibrador” rápido.
Mas ele não substitui o tato humano. Campanhas que buscam conexão emocional profunda, ruptura cultural ou identificação com nichos específicos continuarão dependendo da escuta ativa real.
O SYNTHS surge como resposta a um mercado que cobra agilidade, volume e previsibilidade — e nem sempre tem tempo ou verba para ir até a rua ouvir as pessoas.
Mas a pergunta que fica é: estamos criando campanhas para consumidores reais ou para simulações estatísticas?
No fim, a IA pode até apontar o caminho. Mas quem pisa no chão e compra o produto é gente de verdade.