Menino olhando para a tela de um celular Menino olhando para a tela de um celular
Crédito: Shutterstock

Mais tempo de tela, cérebro mais afiado? Estudo de 8 anos surpreende pesquisadores

Pesquisa finlandesa que acompanhou crianças por oito anos associou mais tempo de tela a melhor desempenho cognitivo na adolescência. Mas o que parece importar é o que se faz diante da tela.

Um estudo finlandês que acompanhou crianças por oito anos chegou a uma conclusão que vai na contramão do que muitos pais e educadores costumam ouvir: quem passou mais tempo diante de telas ao longo da infância tendia a apresentar um melhor processamento cognitivo na adolescência.

A pesquisa, conduzida pela Universidade de Jyväskylä e publicada na revista científica Pediatric Exercise Science, não defende que as telas sejam liberadas sem critério. O recado dos cientistas é outro: mais do que a quantidade de horas, o que parece importar é o que a criança faz diante do aparelho.

O que o estudo investigou

O sedentarismo entre adolescentes é uma preocupação crescente de saúde pública. Ficar muito tempo parado já foi associado a um desempenho escolar pior, enquanto a atividade física é conhecida por fazer bem ao cérebro, principalmente em adultos. Mas ainda se sabe pouco sobre como esses hábitos, ao longo da infância e da adolescência, se refletem na capacidade cognitiva dos jovens.

Essa fase da vida é especialmente importante porque o cérebro ainda está em formação. O que acontece nesse período pode ter efeitos duradouros, com impacto nos estudos e, mais tarde, na vida profissional.

Por isso, os pesquisadores analisaram como atividade física, comportamento sedentário e tempo de tela, da infância à adolescência, se relacionavam com o desempenho cognitivo na adolescência. Eles também buscaram diferenças entre meninas e meninos e observaram se a intensidade dos exercícios fazia diferença.

Telas associadas a melhor desempenho

O resultado que mais chamou atenção foi justamente o das telas: quanto maior o tempo de uso acumulado desde a infância, melhor o processamento cognitivo medido na adolescência.

“Os resultados sugerem que o tempo de tela pode apoiar o processamento cognitivo de crianças e adolescentes. Provavelmente, o ponto essencial é o tipo de coisa que eles fazem nesse tempo”, afirma o pesquisador Petri Jalanko, doutorando da Universidade de Jyväskylä. Segundo ele, professores e pais deveriam incentivar um uso dos dispositivos que estimule o pensamento ativo, a resolução de problemas, a criatividade e o aprendizado.

Atividades digitais que envolvem aprender, criar ou resolver desafios podem ajudar a explicar a relação encontrada. “Não devemos enxergar o tempo de tela apenas como algo prejudicial, e sim buscar um equilíbrio entre atividade física e um uso de telas que promova o pensamento ativo”, resume Jalanko.

Meninas e meninos, resultados diferentes

No caso da atividade física, o cenário se mostrou mais complexo.

Entre as meninas, mais atividade física de intensidade leve desde a infância esteve ligada a uma melhor memória de trabalho na adolescência. Entre os meninos, o que fez diferença foi a participação em atividades físicas orientadas, como treinos e aulas com supervisão.

Houve ainda outra surpresa: níveis mais baixos de exercício feito por conta própria, sem supervisão (conforme relatado pelos próprios participantes), apareceram associados a um melhor processamento cognitivo.

Já os dados coletados por um aparelho que media batimentos cardíacos e movimento não mostraram relação com o desempenho cognitivo. Uma possível explicação é que esses sensores registram o quanto a pessoa se mexe, mas não conseguem dizer o que ela está fazendo nos momentos de atividade ou de pausa.

“Nosso estudo indica que as conexões entre atividade física, comportamento sedentário e processamento cognitivo são complexas e dependem do sexo, do tipo de atividade e da forma como ela é medida. Além disso, meninos e meninas podem se beneficiar de tipos diferentes de atividade física em relação à saúde do cérebro”, acrescenta o pesquisador.

Associação não é causa

Os próprios autores fazem questão de frisar: o estudo mostra associações, e não prova que o tempo de tela ou determinado tipo de exercício provoque, diretamente, mudanças no desempenho cognitivo.

Para chegar a essa resposta, eles defendem estudos de intervenção, capazes de identificar relações de causa e efeito e de entender melhor as diferenças entre os sexos. Também consideram importante investigar com mais detalhe como a intensidade da atividade física influencia as mudanças cognitivas.

Como a pesquisa foi feita

Os dados vêm de um acompanhamento de oito anos do estudo PANIC, que investiga atividade física e nutrição na infância. A análise incluiu 124 meninas e 136 meninos, com idade média de 15,8 anos.

A atividade física e o sedentarismo foram medidos de duas formas: por questionários e por um aparelho que combinava frequência cardíaca e movimento. Aprendizado, atenção e memória de trabalho foram avaliados com a bateria de testes CogState.

A conclusão, no fim das contas, é menos sobre contar minutos e mais sobre qualidade: em vez de demonizar as telas, o desafio para pais e escolas pode ser orientar como elas são usadas, sem abrir mão do movimento.

Fonte: Universidade de Jyväskylä, via ScienceDaily. Estudo: Jalanko et al., “Associations of Physical Activity and Sedentary Time From Childhood to Adolescence With Cognition in Adolescence: The PANIC Study”, Pediatric Exercise Science, 2026. DOI: 10.1123/pes.2025-0083.