Procusto e branding: uma aliança ou um alerta

Uma história de um bandido que forçava viajantes a se deitarem numa cama, cortando as partes do corpo que excediam as dimensões do leito
Ilustração de boneco em cama com indicadores de corte. Ilustração de boneco em cama com indicadores de corte.

Nunca mais me esqueci desse mito da mitologia grega. Ele me acompanhou durante um curso muito inspirador que fiz há alguns anos no Sedes Sapientiae. E ficou sempre em minha memória, por várias razões que não confesso. Mas uma delas eu compartilho com vocês, leitores. 

Em primeiro lugar, quem foi Procusto?

O mito do Procusto, da mitologia grega, “narra a história de um bandido que forçava viajantes a se deitarem numa cama de ferro do seu tamanho, cortando as partes do corpo que excediam as dimensões do leito ou quebrando os ossos dos que não o preenchiam.” Suas vítimas eram viajantes que passavam pela região e recebiam o convite para o pernoite, na verdade, para uma noite de terror! 

O mito me abriu definitivamente os olhos para o pecado da falta de foco em branding. Ou melhor, para falta de humildade e simplicidade. E do excesso de ambição na gestão de marcas. Talvez eu já soubesse disso antes. Ao me lembrar do Procusto, porém, me obrigo a estar sempre atento para deslizes imperdoáveis e não cair no seu leito e alerto, quem estiver por perto, para esse risco. 

São 4 confissões que compartilho com vocês, inspiradas nessa história tão arcaica quanto ilustrativa. 

1. A falta de empatia

Procusto era o bandido que emboscava suas pobres vítimas. Independentemente de quem fossem. Seu olhar era de absoluta e total negação do elementar princípio de empatia. Nunca imaginou ver o mundo a partir do outro. E nas relações com consumidores, talvez seja esse o erro mais trágico. Ver o mundo a partir de suas próprias convicções. Encaixá-lo no leito incômodo, onde a marca não ajusta. Ou, simplesmente ver o mundo a partir de sua mesa de trabalho. É o perigo que ronda nossa profissão, como nos sinalizava o grande Jack Welch da G&E. 

2. A ambição oceânica

O mito me lembra sempre de algo que, muitas vezes, temos dificuldade de convencer quem atendemos. Ou seja, deixar de lado a ambição de encaixar consumidores diferente na mesma caixa, ou na mesma cama. Essa ambição oceânica é a pura desobediência a princípios essenciais de segmentação de mercado. Segmentação é algo que nos obriga a seccionar o mercado e não esticar ou cortar a pobre marca. 

3. A comunicação dispersiva

Esta é uma consequência da anterior: investir em programas de comunicação ou planos mídia que se esquecem dos limites possíveis de até onde vai a atenção ou a zona de interesse do público-alvo. Hoje, mais do que nunca, a conquista da atenção é a moeda mais valiosa de qualquer plano de comunicação. Lembrem-se, consumidores são dotados de algo como guard rail mental que expulsa o que não lhes interessa. E eles nem dão bola para o que aparece em sua frente, é como se a marca falasse com uma parede. 

4. A magia do posicionamento

Tenho a impressão de que All Ries e Jack Trout, quando publicaram o imperdível livro Posicionamento – a batalha por sua mente, haviam refletido sobre esse mito. Lógico que não, isso é puro devaneio meu, imaginar que sabiam que o Procusto seria útil para o livro. De qualquer maneira, o paralelo com o mito é total. Escolher o “espaço escuro e úmido, de um centímetro cúbico” – como diz o livro – em nossa mente para alojar a mensagem da marca é o que define posicionamento. A marca não se adapta a qualquer “leito”. Muita calma nessa hora. Não seja um viajante desavisado no mercado. Pense bem em que pousada a marca vai dormir. 

O reinado de terror do Procusto terminou quando Teseu, um herói de Atenas deu cabo dele. E como foi isso? Prendeu o bandido no próprio leito do suplício encerrou sua carreira de terror. Em branding, um pouco de Teseu em cada um de nós é um santo remédio. As marcas agradecem!