Por que a IA tem obtido sucesso onde a medicina tem falhado?

Por que uma máquina tem conseguido oferecer mais clareza, escuta e direção do que boa parte do atendimento médico tradicional?

Recentemente vivi duas experiências com Inteligência Artificial que me fizeram refletir sobre algo desconfortável: por que uma máquina tem conseguido oferecer mais clareza, escuta e direção do que boa parte do atendimento médico tradicional?

Filmes como A.I. – Inteligência Artificial, Her, I Am Mother e Apocalipse sempre flertaram com a ideia de máquinas capazes de simular emoções humanas. Durante muito tempo, isso pareceu apenas ficção. Hoje, começa a se manifestar de forma concreta, especialmente na saúde.

Com a ascensão da Human-Centered AI (HCAI), que prioriza necessidades humanas, valores e capacidades, a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de eficiência e passa a atuar como interface de cuidado, organização e sentido.

A IA tradicional se concentra em processar dados. A IA aplicada à saúde, quando bem desenhada, faz algo diferente: organiza narrativas humanas complexas, considera o contexto emocional e devolve clareza ao paciente.

Há mais de dez anos rompi parcialmente o ligamento cruzado anterior do joelho. Optei por não operar. Este ano, dores recorrentes no joelho e na região lombar me levaram, pela primeira vez, a buscar orientação por IA. Acreditava que a cirurgia seria inevitável.

Não foi.

A IA me mostrou que, no meu caso, a cirurgia não resolveria o problema. As dores eram motoras: resultado de anos de adaptação do corpo após o trauma. A solução não estava em bisturi ou medicamentos, mas em reeducação neuromuscular.

Os exercícios funcionaram. Sem cirurgia ou medicamentos. Se não tivessem funcionado, este texto não existiria.

Intrigada pelo resultado, decidi testar novamente. Descrevi sintomas de uma condição que nunca havia sido diagnosticada. Em menos de um minuto, a IA levantou uma hipótese: prurido neuropático.

Chorei.

Chorei pelas inúmeras consultas sem resposta. Pelos exames invasivos e inconclusivos. Por lembrar de uma médica gritando com minha mãe, que insistia em um diagnóstico. Por ouvir, durante anos, que era “coisa da minha cabeça”.

Houve um médico, uma vez, que mencionou algo neurológico, sem nome, sem explicação, sem caminho. A IA, ao contrário, explicou o que era, como acontecia e, principalmente, como reeducar o corpo para dessensibilizar a pele.

Mais uma vez, sem exames, sem medicamentos, sem cirurgia, meu organismo aprendeu uma nova forma de existir.

Foi então que a pergunta se impôs:

Por que os médicos raramente prescrevem reeducação do corpo como tratamento?

Saímos dos consultórios quase sempre com uma receita farmacológica. Naturalizamos isso. Passar mais de 30 anos sem diagnóstico, enquanto uma IA organiza hipóteses em minutos, não é um milagre tecnológico,  é um sintoma grave da medicina contemporânea.

O médico está preso a:

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  • tempo escasso
  • metas
  • convênios
  • judicialização
  • burnout

A IA, por outro lado, foi desenhada para maximizar atenção, escuta e coerência.

Enquanto o médico é recompensado por atender rápido, a IA é recompensada por atender bem.

Empatia exige energia cognitiva. Um médico atende 20, 30, 40 pessoas por dia. Para sobreviver, cria defesas emocionais. Entra no modo automático.

A IA não se defende. Não se cansa. Não endurece.

Ela escuta como se fosse a primeira vez. Sempre.

Grande parte da medicina ainda opera sob um modelo implícito de poder: “Eu sei. Você obedece.”

A IA nasce no modo: “Explique melhor. Vamos construir juntos.

Ela valida antes de corrigir. Organiza o relato antes de propor hipóteses.

Isso reduz ansiedade. Ansiedade reduz sensação de abandono.

E abandono é o que muitos chamam, hoje, de “desumanização”.

A IA não é mais humana. Ela apenas simula, com precisão, comportamentos que associamos à humanidade: tempo, escuta, clareza e respeito.

A pergunta certa não é:

“Por que a IA parece mais humana?”

Mas sim:

“Por que tornamos o humano incapaz de ser humano?”