‘O Agente Secreto’, filme brasileiro que fez sucesso no exterior e está indicado em quatro categorias do Oscar 2027, é um quebra-cabeça memorial.
Através da história de Marcelo (Wagner Moura), a trama monta e desmonta a perspectiva sobre o que o Brasil foi, é e, sobretudo, pode ser — para o bem e para o mal.

Kleber Mendonça Filho já trabalhou a memória em outros filmes, sendo ‘Retratos Fantasmas’ o spin-off mais visível de ‘O Agente Secreto’. O que o diretor faz muito bem neste último trabalho é usar o próprio cinema como parte desse gerador de laços e memórias.
Ao longo da história, Marcelo foge de um assassino, se esconde na pensão de Dona Sebastiana, repassa suas angústias e tenta, de alguma forma, restaurar o convívio com o filho. É importante também ver como Marcelo usa seu trabalho de fachada em um arquivo para procurar a identidade de sua mãe. Aliás, todos os personagens carecem dessa relação, buscam o vínculo que está sendo cortado, como se suas tramas estivessem sendo jogadas fora na sala de edição por uma decisão que não cabe ao “montador”. Só há rastros, ou melhor, os retratos fantasmas.
Os laços familiares são apenas um dos nós que costuram a memória individual e, a partir deles, tecem a história coletiva, aquilo que não está devidamente registrado nos livros de história.
Isso foi uma das coisas de que mais gostei em ‘O Agente Secreto’: a forma como as referências cinematográficas estão inseridas na trama.
Para mim, isso tem o propósito bonito de mostrar que, em tempos de horror — sejam eles quais forem —, o cinema é capaz de conter a repressão e domar o trauma. Daí, o agente secreto do título assume, então, essa face: a da arte como única arma capaz de produzir uma revolução. E a memória, ou seja, aquilo que é exilado com a violência, pode, enfim, encontrar paz.
Kleber homenageia o gênero inserindo curtas dentro do seu longa – trash movie, suspense, ação e terror – porque o cinema é a razão dele próprio, enquanto criador e espectador, de ter memória.

Cada take de ‘O Agente Secreto’ funciona como peça desse quebra-cabeça, que precisa do público para se completar. As referências a filmes como ‘Tubarão’ e ‘Cinema Paradiso’, por exemplo, orbitam em torno do espectador, reforçando seu protagonismo. O nosso olhar (ou a falta dele) participa ativamente da montagem do filme. Por isso que o final é tão impactante, inesperado e até mesmo “frustrante”.
Não deixa de ser oportuno ver ‘O Agente Secreto’ em um momento de fortalecimento do cinema nacional, que viveu um momento de glória com a coroação de ‘Ainda Estou Aqui’ no ano passado.
De algum modo, esse último trabalho de Kleber, onde cada personagem mantém sua identidade clandestina justamente para não perdê-la, coloca o nosso povo como guardião de uma cultura que teima em não ser apagada, que precisa resistir à ansiedade da era digital e a própria desmontagem que o mercado cinematográfico está sofrendo. Afinal, as salas colocam desconhecidos para comungarem juntos por algumas horas, algo que não acontece em outras telas.
A missão desse agente secreto, portanto, continua após o fim do filme de Kleber, já que o Cinema ainda resiste em ser o lugar onde podemos ver tantas histórias que não foram contadas, de pessoas comuns, como Marcelo.