O jornal da noite ainda estava na abertura quando a campainha tocou. Era o vizinho da casa 12, o que trabalha no banco, com a travessa de vidro na mão. Vinha devolver a do pavê de domingo, lavada e enrolada num pano de prato.
— Entra, que eu tô vendo o jornal.
Na TV, o apresentador dizia que o Brasil deve voltar a ser a oitava maior economia do mundo. A avó levantou, abriu a despensa e tirou o pacote de café. O último. Ficou olhando pra ele como quem olha uma conta de luz.
— Oitava maior do mundo. E eu comprando o pacote pequeno porque o grande não cabe no mês. Você, que mexe com dinheiro, me explica: como o país tá rico e o meu dinheiro não rende?
— Tem pegadinha aí, dona. O que eles tão medindo é o PIB.
— Sei. É aquele que sobe e desce no jornal.
— Pensa na quermesse da paróquia. No fim da noite, o padre soma tudo o que foi vendido: pastel, quentão, pescaria, cartela de bingo. Esse total é o PIB da quermesse.
— Só o que foi vendido? E o bolo que a dona Cida fez de graça?
— Se for vendido em fatia, entra. O que ninguém compra nem vende fica fora. A senhora fazendo almoço aqui em casa, por exemplo, não conta.
— Então cinquenta anos de fogão não valeram nada pro PIB. Sempre desconfiei.
— Pois é. Uma pesquisa da FGV calculou que, se esse trabalho de casa fosse contado, o PIB seria uns 13% maior.
— Nem me surpreende.
— Agora imagina duas quermesses. Uma na paróquia grande do centro, com cinquenta barracas. Outra na capelinha da roça, com cinco. Qual vende mais?
— A grande, ué.
— E se dividir o dinheiro pelos barraqueiros?
A avó pensou um pouco.
— Aí pode ser que cada um da capelinha leve mais pra casa.
— Isso. O Brasil é a quermesse grande. Tem muita gente trabalhando, então o total fica alto. O FMI calcula que o PIB brasileiro chega a uns 2,8 trilhões de dólares no ano que vem e passa a Itália e a Rússia. Mas dividindo por pessoa, em 2025 deu pouco mais de 10 mil dólares por cabeça. Ficou logo abaixo da Albânia.
— Albânia — ela repetiu, como se fosse nome de personagem de novela.
— E a média ainda engana. O IBGE dividiu tudo que o país produziu em 2025 pelo número de brasileiros. Deu quase 60 mil reais por pessoa no ano. Uns 5 mil por mês, contando até criança de colo.
— Cinco mil por mês? Eu não vi nem a sombra.
— Porque média é média. Se a barraca do bingo fatura muito e a do quentão quase nada, a conta fica bonita e o do quentão continua apertado.
— E o café?
— Café é preço. O PIB mede o tamanho da quermesse. Não diz quanto custa o pastel pra quem tá na fila.
Ela pôs o pacote em cima da mesa.
— E esse oitavo lugar? A gente trabalhou mais esse ano pra subir?
— Aí entra o dólar. Pra comparar quermesse de país diferente, eles convertem tudo pra dólar. Digamos que a nossa vendeu mil pastéis a dez reais. Com o dólar a cinco reais, deu dois mil dólares. Se o dólar cai pra quatro, os mesmos mil pastéis viram dois mil e quinhentos dólares.
— Sem fritar um pastel a mais.
— Nem um. E se o dólar sobe, a quermesse encolhe no papel.
— Então o país sobe no ranking porque o dólar mudou de humor?
— Em boa parte, pode ser. O FMI até baixou a previsão de crescimento de verdade do Brasil este ano, de 2,4% pra 2,2%. Mesmo assim, a posição melhora no ranking em dólar.
— Crescimento de verdade é o quê?
— É quantos pastéis a mais foram vendidos, tirando o efeito do preço.
— Então são três quermesses. A dos pastéis, a do dinheiro e a do dólar. E o jornal só mostra a do dólar.
O vizinho abriu a boca, fechou de novo.
— Nunca tinha separado assim. Mas é isso mesmo.
— Pois então. O Brasil é a quermesse cheia de barraca, e o padre manda a conta pro bispo em moeda dos outros. Pode até ganhar lugar no quadro da paróquia. Agora, o que me interessa é quanto sobrou no avental de cada barraqueiro. E isso aí nenhum ranking mostra. — Ela guardou o café de volta na despensa. — Quer um? Ainda dá pra dois.
PIB (Produto Interno Bruto) é a soma do valor de todos os bens e serviços finais produzidos em um país num período. Em 2025, segundo o IBGE, o PIB brasileiro cresceu 2,3% e somou R$ 12,7 trilhões; o PIB per capita ficou em R$ 59.687,49, que é uma média e não mostra como a renda se distribui. Os rankings internacionais do FMI usam o PIB nominal convertido em dólares correntes, sem descontar a inflação, por isso a variação do câmbio também muda a posição dos países. Pelas projeções de outubro de 2026, o Brasil deve passar do 10º lugar em 2026 (US$ 2,655 trilhões) para o 8º em 2027 (cerca de US$ 2,8 trilhões). Em PIB per capita, o FMI estimou o Brasil em cerca de US$ 10,7 mil em 2025, longe das economias mais ricas. Trabalho doméstico não pago fica fora da conta.






