Um show pra conhecer: Fitti canta Ney Matogrosso

Com direção artística de Marcus Preto, o cantor natural de Recife estreou a turnê no Sesc Pompeia, em São Paulo.
Pessoa em traje preto com colar na penumbra. Pessoa em traje preto com colar na penumbra.

Eu nunca caí de um elevador. Mas algo me diz que a sensação de despencar pelos andares em direção ao chão deve ser parecida com ouvir “O Homem de Neandertal”, na voz de Fitti. Natural do Recife, o cantor, compositor e ator passou pelo Sesc Pompeia, em São Paulo, com o show “Fitti canta Ney”, no finalzinho de fevereiro, e prossegue para o Rio e outras cidades.  

A imagem de despencar de um elevador é simbólica pra mim e, nesse caso, a obra do Ney seria o tal meio de transporte: ninguém tem medo de entrar. Já a voz de Fitti, sua imponência em cena e a capacidade de cortar as cordas de qualquer coisa seriam o imprevisível e o chocante que podem acontecer até mesmo em uma viagem de elevador.  

Isso ficou mais forte na abertura do espetáculo, já que eu não conhecia o artista. Vi o show disponível, comprei o ingresso, escutei seu primeiro álbum – o ótimo “Transespacial – e me sentei na poltrona do teatro pronto para ver um cantor interpretando a obra de ícone da MPB. Sem surpresas. 

Não foi bem o que aconteceu. 

Com as luzes apagadas e a banda já no palco, o grito de “eu sou o homem de neandertal” inverteu a direção da queda em um movimento para dentro da história de Ney e de Fitti, como se ambos partissem do mesmo lugar. Dessa maneira, o repertório e a cuidadosa direção artística de Marcus Preto desabaram a perspectiva do público em assistir uma imitação ou a homenagem pura. 

Fitti tem personalidade para cantar “Postal de Amor” e “Flores Astrais”, por exemplo, com a secura de quem entende a vulnerabilidade dos sentimentos mais íntimos ante a fúria do país onde vive. 

Foto: Michael William / Divulgação

Na sua voz, “O patrão nosso de cada dia” e “Tem gente com fome” confirmam a urgência que as canções poetizam, versando com pautas que fazem parte da rotina do povo.  Segundo o jornalista Mauro Ferreira, o álbum desse show deverá ser lançado em breve. 

No meio do show, Fitti fez uma interpretação vigorosa de “Sangue Latino”. Pra mim, ali a queda tinha terminado, “chegamos ao chão”, pensei. Então, o cantor arrancou a parte de cima do figurino para cantar “Mal Necessário”. 

Fitti é um homem trans. O fato deveria ser conhecido pela maioria da plateia, mas, pra mim, foi uma revelação e serviu para transmutar a história que estava sendo contada naquelas canções. 

“Bandido Corazón”, “Seu tipo” e “Dívidas de amor”, composta pelo próprio Ney, além de “Balada do louco” e a inescapável “Homem com H”, mostraram que mais do que só “cantar” Ney Matogrosso, Fitti costurou suas dores, amores e angústias naquilo que lhe cala fundo, como a arte costuma fazer mesmo.

Seja para quem cria, ou para quem consome, esse transporte que a música faz, nos levando para outros andares, vidas ou corpos, é uma grande transmutação. Ninguém sai o mesmo depois de uma sessão no cinema, um show ou de ter apreendido as cores de um quadro em um museu. 

Sim, o artista também pode ser uma forma de arte. “Eu sou a bandeira”, como disse Ney Matogrosso em 2019 ao ser cobrado por mais protagonismo no movimento LGBT e Fitti também estende as suas em cena. Não por acaso, ele encerrou o show coberto pela bandeira do Recife, cantando “Noite Severina”. Mas a arte, em casos únicos como o vivido no Sesc Pompeia, pode ser tão imprevisível e impactante quanto despencar de um elevador. 

Sobrevivi para contar essa história. 

 

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FICHA TÉCNICA

Direção artística: @marcuspreto

Direção musical: @pupillomusica

Banda: @pupillomusica (bateria) | @vicvilandez (baixo) | @yuriqueiroga (guitarra) | @vinifurquim (teclados e synths)

Styling: @helenomanoel

Produção de moda: @guilherme.fracaro | @alex.maced0

Preparação vocal: @lu_assanti

Maquiagem: @fernandissimo

Cabelo: @edu.mpj

Iluminação: @letrovijo

Técnico de P.A.: @geziel.m

Técnico de monitor: @rodrygolink

Roadie: @lalizuno

Produção: @olhovivoproducoes | @joserenatomello | @kamila_azrak