
Ela estava assistindo ao jornal quando o repórter disse que quatro astronautas tinham ido pra Lua.
Desligou o ventilador pra ouvir melhor.
— Mas já não foram na Lua? — ela perguntou pro neto, que estava no sofá mexendo no celular.
— Foram, vó. Em 1969. Só que faz cinquenta anos que ninguém volta.
— Cinquenta anos? — Ela piscou. — Nossa, como o tempo passa. Eu lembro de ver na televisão em preto e branco. Se bem que lá na Lua é tudo preto e branco mesmo, sei lá se era a TV.
— Então imagina como é esse lançamento agora.
Ela apagou o jornal e virou pro neto.
— Mas por que eles pararam de ir?
– Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Ou melhor, de bilhões. Ir pra Lua é caro. Muito caro. Na época da Apollo — o programa dos anos 60 e 70 — os Estados Unidos gastaram o equivalente a 280 bilhões de dólares de hoje. E foram lá porque tinham que chegar antes da União Soviética. Era uma corrida. Como dois vizinhos brigando pra ver quem coloca a antena maior no telhado primeiro. Quando ganharam a corrida, perderam o interesse. E o dinheiro foi pra outra coisa. Cinquenta e três anos se passaram. A última vez que um ser humano pisou na Lua foi em dezembro de 1972. O astronauta chamava Gene Cernan. Antes de subir de volta pro módulo, ele disse: *”Saímos como viemos e, se Deus quiser, voltaremos.”*
Depois disso: silêncio.
— Mas agora foram de novo?
— Quase. Ainda não pousaram. Essa missão é um ensaio geral.
— Como assim ensaio?
– Pensa assim: quando você vai ensaiar uma peça de teatro, não estreia de primeira. Vai pro palco, testa o microfone, vê se a iluminação funciona. Só depois coloca o público pra dentro. É exatamente isso. A NASA lançou quatro astronautas no dia primeiro de abril em direção à Lua. Eles vão dar uma volta em torno dela, tirar fotos, testar todos os sistemas da nave, e voltar. Dez dias no total.
Ela ficou quieta um segundo.
— Quer dizer que foram até lá… mas não vão pousar?
— Não dessa vez, vó.
— Madona, foram até a Lua pra não descer?!
— Pra ver se tudo funciona com gente dentro. A nave se chama Orion. O foguete que os levou, SLS — o mais potente que a humanidade já construiu. São quatro tripulantes: Reid Wiseman, o comandante; Victor Glover, o piloto — e a primeira pessoa negra a chegar tão longe no espaço; Christina Koch, a primeira mulher a ir até a Lua; e Jeremy Hansen, do Canadá — o primeiro canadense. Hoje eles estão fazendo o sobrevoo. Passando pertinho da superfície, fotografando crateras e campos de lava antiga que ninguém nunca viu de perto. Amanhã, o retorno começa.
— E quando é que vão pousar de verdade?
— Na próxima missão. Se esse ensaio der certo.
Ela balançou a cabeça com uma mistura de conformismo e desconfiança.
— Cinquenta anos pra voltar, e voltam pra dar uma voltinha.
— É assim que funciona, vó. Um passo de cada vez.
— Na minha época a gente chamava isso de enrolação.
—
Mas tem motivo pra voltar com tanto cuidado. A Lua não é só um lugar bonito pra fotografar.
Ela tem hélio-3 — material raríssimo na Terra que pode gerar energia limpa. Tem água gelada nos polos, que pode virar combustível pra viagens mais longas. E fica a apenas três dias daqui — o que a torna um trampolim perfeito pra ir mais longe ainda. Pra Marte, por exemplo.
— Marte agora?
— Devagar, vó. Primeiro a Lua.
Ela ficou olhando pela janela por um momento.
— Na minha época, a gente ficava olhando pra Lua e achava que era impossível chegar lá.
— E mesmo assim chegaram.
— Chegaram — ela concordou. — Mas não ficaram.
O neto não tinha resposta pra isso.
Às vezes a avó resume melhor do que qualquer repórter.
—
*Artemis II decolou no dia 1º de abril de 2026. São quatro tripulantes a bordo da nave Orion, em missão de dez dias ao redor da Lua — a primeira com humanos além da órbita baixa da Terra desde a Apollo 17, em 1972. O sobrevoo lunar aconteceu em 5 de abril. O retorno está previsto para os próximos dias.*