O Cannes Lions International Festival of Creativity continua sendo o maior palco global da publicidade e da comunicação de marca. Realizado anualmente na Riviera Francesa, o evento atrai milhares de profissionais, marcas e agências em busca de reconhecimento e networking. Em 2026, a expectativa é repetir os 13 mil participantes da edição anterior, reforçando sua relevância como vitrine mundial da criatividade. No entanto, por trás do glamour do Palais des Festivals, cresce um debate que vem ganhando força: vale a pena investir tanto dinheiro em Cannes?
O Custo de Estar em Cannes
Participar do festival não é barato. Só em 2024, o Brasil desembolsou cerca de R$ 12,9 milhões em inscrições, com mais de 2 mil trabalhos enviados. Cada peça custou, em média, R$ 6 mil, sem contar despesas adicionais como produção de videocases, ações de PR e viagens. O credenciamento oficial pode ultrapassar € 10 mil por pessoa. Para agências independentes, esse investimento pesa ainda mais, já que seus orçamentos são limitados e disputam espaço com outras prioridades, como contratação de talentos, capacitação e investimento em tecnologia.
O Debate Global
Agências independentes da Índia e do Brasil têm levantado a mesma questão: o retorno financeiro e estratégico compensa?
- Na Índia, algumas empresas chegaram a cogitar não participar em 2026, devido ao aumento dos custos de viagem e inscrição.
- No Brasil, executivos apontam que o festival continua relevante, mas que a lógica do troféu vem sendo substituída pela lógica da efetividade.
Ganhar um Leão ainda traz reputação e visibilidade internacional, mas indicadores como geração de leads, aumento de vendas e impacto territorial das ativações começam a pesar mais nas decisões estratégicas.
Cannes Fora do Palais
Outro ponto levantado por profissionais é que a parte mais interessante do festival acontece fora das premiações oficiais. Hotéis, restaurantes e espaços da orla da cidade se transformaram em extensões do evento, recebendo ativações milionárias de gigantes como Google, Meta, TikTok e Spotify. Essas experiências imersivas atraem profissionais que viajam para Cannes mais interessados em networking e nas ativações paralelas do que na programação oficial — fenômeno apelidado de “pipoca”.
O Desafio das Agências de Brand Experience
Agências independentes brasileiras especializadas em brand experience enfrentam uma barreira adicional: a dificuldade de jurados internacionais em compreender o contexto cultural e regional dos projetos locais. Isso impacta diretamente o reconhecimento de cases que, apesar de gerarem resultados expressivos de negócio, não têm a mesma “legibilidade” para avaliadores estrangeiros.
O Valor do Leão em Transformação
O que está em jogo não é a relevância do Cannes Lions, mas a forma como diferentes players enxergam o retorno do investimento:
- Holdings e plataformas globais: continuam usando Cannes como ferramenta estratégica de posicionamento e relacionamento.
- Agências independentes: questionam se o festival ainda é o principal caminho para validar relevância criativa ou se os dados de efetividade podem construir narrativas mais poderosas.
Essa mudança de mentalidade reflete um amadurecimento do mercado, que passa a valorizar resultados tangíveis em um cenário de pressão financeira e transformação tecnológica.
Para quem atua em publicidade, especialmente em agências independentes, o debate sobre Cannes traz lições importantes:
- Avaliar custo-benefício: Cannes pode ser estratégico, mas não deve comprometer investimentos essenciais em equipe e inovação.
- Reforçar métricas de efetividade: mais do que troféus, o mercado valoriza resultados concretos.
- Explorar networking fora do Palais: muitas oportunidades surgem nas ativações paralelas e nos encontros informais.
- Adaptar narrativas ao contexto global: cases locais precisam ser apresentados de forma que jurados internacionais compreendam sua relevância.
O Cannes Lions segue sendo um evento de prestígio, capaz de gerar visibilidade e reputação internacional. No entanto, o mercado vive um momento de transição: menos obsessão por troféus e mais foco em resultados reais. Para agências independentes, a participação precisa ser pensada com cautela, equilibrando o desejo de reconhecimento com a necessidade de sustentabilidade financeira e impacto estratégico.
Em um mundo onde a criatividade disputa espaço com dados e tecnologia, Cannes continua relevante — mas não é mais a única forma de provar valor. O verdadeiro desafio para profissionais de publicidade é encontrar o equilíbrio entre o brilho do festival e a efetividade das campanhas no dia a dia.






