Durante muito tempo, a evolução dos refrigerantes seguiu uma linha previsível. Vieram as versões diet e light. Depois, o “zero” ganhou espaço nas prateleiras e deixou de ser apenas uma alternativa para se tornar uma categoria importante por si só.
Agora, Coca-Cola e Ambev, dois gigantes das bebidas no Brasil, dão sinais de uma nova fase. A Coca-Cola lançou por aqui uma versão Zero Açúcar e Zero Cafeína. A Ambev amplia a distribuição do Guaraná Antarctica Zero com Fibras, com 4,4 gramas de fibras por lata.
São movimentos diferentes, mas contam uma história parecida: depois de tirar o açúcar, as marcas começam a adaptar o refrigerante a momentos e expectativas mais específicos.
Uma Coca-Cola para o fim do dia
A novidade da Coca-Cola consiste em remover algo que sempre fez parte da fórmula: a cafeína. A página brasileira da marca já apresenta a Coca-Cola Zero Cafeína, Zero Açúcar e Zero Calorias como uma opção para qualquer hora do dia.
O apelo é fácil de entender. Muita gente gosta do sabor, mas prefere evitar cafeína à noite. A embalagem preta e dourada também distingue o produto da Coca-Cola tradicional e da Zero que já conhecemos.
Aqui, a inovação não está em acrescentar um benefício extraordinário. Está em retirar uma possível barreira de consumo. Se o zero açúcar abriu espaço para quem evitava açúcar, o zero cafeína tenta abrir mais uma ocasião para a mesma marca.
Guaraná com fibra. Sim, fibra.
A Ambev fez o movimento inverso. Partiu do Guaraná Antarctica Zero e acrescentou fibra à fórmula. O produto contém 4,4 gramas de fibras por lata e usa polidextrose. Após um piloto iniciado no fim de 2025, a empresa anunciou a ampliação da distribuição para o Sudeste, Sul e Centro-Oeste, com a intenção de chegar ao restante do país até o fim de 2026.
Segundo a Ambev, no segundo trimestre de 2026 a bebida esteve entre suas cinco latas de bebidas não alcoólicas mais vendidas. É um sinal interessante de aceitação, embora seja um dado divulgado pela própria empresa e não uma medida de participação no mercado inteiro.
Claro que uma lata com fibras não substitui feijão, frutas, legumes ou outros alimentos que as fornecem. Ainda é refrigerante. Mas o lançamento mostra que um atributo antes estranho à categoria pode virar argumento de escolha na geladeira do supermercado.
O que vem depois do “zero”?
É essa mudança que me chama atenção. Por décadas, o refrigerante foi vendido principalmente por sabor, marca e ocasião. A redução do açúcar virou uma grande segunda conversa. Agora parece surgir uma terceira: o que mais um refrigerante pode oferecer — ou deixar de conter?
A resposta da Coca-Cola é adequar a bebida a quem quer evitar cafeína em certos horários. A da Ambev é acrescentar fibra a uma versão sem açúcar. Isso não faz dos dois produtos equivalentes nem significa que estejamos diante de uma revolução nutricional. São apostas comerciais para atender hábitos diferentes.
Minha impressão é que a palavra “funcional” vai aparecer cada vez mais nas embalagens e campanhas de bebidas. Vale olhar para ela com curiosidade, sem confundir promessa de marketing com alimentação saudável. Para as marcas, porém, o caminho está aberto: depois do zero açúcar, a pergunta já não é apenas qual sabor lançar.
É zero o quê — ou com o quê?






