A sociedade bege: a morte lenta das cores

De carros cinza a casas minimalistas, estamos vivendo em um mundo cada vez mais neutro. Mas será que, ao eliminar a cor dos ambientes, também estamos eliminando parte daquilo que nos faz sentir?

Como a obsessão pela neutralidade transformou nossos espaços, nosso consumo e talvez até a maneira como sentimos o mundo.

Tente imaginar um estacionamento dos anos 1980. Carros vermelhos, amarelos, azuis, verdes, alguns em tons que hoje dificilmente encontraríamos numa concessionária. Agora imagine um estacionamento contemporâneo. Uma sucessão de veículos pretos, brancos, prateados e cinzas. Faça o mesmo exercício com os celulares, os eletrodomésticos, os restaurantes, os quartos infantis e até as decorações de Natal. Há algumas décadas, esses ambientes e objetos pareciam disputar nossa atenção pela quantidade de cores. Hoje, parecem disputar nossa aprovação justamente pela ausência delas. O bege virou sofisticado. O cinza virou moderno. O branco virou elegante. E aquilo que antes era chamado de personalidade passou, muitas vezes, a ser tratado como excesso de informação visual.

Essa transformação não é apenas uma impressão nostálgica. Em 2020, uma pesquisa conduzida por Cath Sleeman, com base no acervo do Science Museum Group, no Reino Unido, analisou imagens de 7.083 objetos de diferentes períodos históricos. O resultado apontou um crescimento da presença do cinza ao longo do tempo, acompanhado pela redução de tons marrons e amarelos. Parte desse fenômeno pode ser explicada pela substituição de materiais, como a madeira pelo plástico e pelo metal. É importante reconhecer que um acervo de museu não representa estatisticamente todos os objetos produzidos no mundo, mas a tendência observada ajuda a ilustrar uma transformação material e estética. No setor automotivo, o movimento é ainda mais evidente. Segundo o relatório global de cores da BASF de 2025, 83% dos automóveis produzidos são brancos, pretos, cinzas ou prateados. Somente o cinza ganhou dois pontos percentuais de participação naquele ano.

Não foi apenas a indústria automobilística que mudou. O McDonald’s, talvez um dos maiores símbolos da cultura visual colorida do século passado, passou por sucessivas transformações arquitetônicas que reduziram a presença do vermelho e do amarelo em parte de seus restaurantes. O projeto internacional de redesign conhecido como Project Ray, por exemplo, adotou concreto, vidro, aço e ambientes mais minimalistas. O universo lúdico que um dia ajudou a transformar a marca num destino familiar passou a conviver com uma estética mais próxima de cafeterias contemporâneas. É verdade que a própria marca também vem revisitando elementos de sua identidade histórica, mas a transformação revela algo interessante: quando o entretenimento, a infância e a diversão passaram a precisar parecer tão adultos?

Nas nossas casas, o fenômeno é igualmente perceptível. Cozinhas com eletrodomésticos coloridos deram lugar a superfícies de inox. Quartos infantis repletos de brinquedos, desenhos e contrastes passaram a dividir espaço com paletas suaves, madeira clara e brinquedos em tons naturais. Salas de estar antes preenchidas por quadros, livros, estampas e lembranças familiares passaram a ser apresentadas como ambientes ideais quando têm poucos objetos, paredes neutras e superfícies impecavelmente organizadas. Há beleza nisso, evidentemente. O minimalismo pode produzir tranquilidade, organização e conforto. Mas existe uma diferença entre simplificar o ambiente para viver melhor e transformar a própria vida numa composição visual que parece não admitir bagunça, espontaneidade ou imperfeição. A casa está sendo desenhada para quem mora nela ou para a fotografia que será publicada nas redes sociais?

A questão fica mais interessante quando encontramos a psicologia ambiental. Uma revisão científica publicada em 2025 no periódico Psychonomic Bulletin & Review, conduzida pelas pesquisadoras Domicele Jonauskaite e Christine Mohr, reuniu 132 estudos realizados ao longo de 128 anos, envolvendo 42.266 participantes de 64 países. Os resultados identificaram associações consistentes entre cores e emoções. Amarelo e laranja foram relacionados a emoções positivas de maior ativação, enquanto azul e verde apareceram associados a estados positivos de menor ativação. O cinza, por sua vez, esteve associado a emoções negativas de baixa ativação. Isso não significa que morar numa casa cinza cause tristeza ou que pintar uma parede de amarelo produza felicidade. O estudo investigou principalmente associações psicológicas, não efeitos clínicos diretos. Mas demonstra algo fundamental: a cor não é percebida pelo cérebro como uma informação inteiramente neutra. Ela participa da maneira como interpretamos emocionalmente o mundo.

Existe uma segunda camada de pesquisa, ainda mais relevante, que mostra como as condições físicas dos ambientes podem influenciar nossa saúde mental. Em 2018, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia publicaram no JAMA Network Open um experimento realizado em áreas urbanas da Filadélfia. Terrenos abandonados foram divididos em grupos que receberam intervenções diferentes, incluindo revitalização com vegetação, limpeza simples ou nenhuma intervenção. Entre os moradores próximos aos terrenos revitalizados com vegetação, houve uma redução relativa de 41,5% nos relatos de sentimentos depressivos em comparação ao grupo de controle. O estudo não avaliou exclusivamente a aplicação de cores. Envolveu limpeza, natureza e manutenção. Ainda assim, deixa evidente que as condições do espaço onde vivemos podem ter consequências mensuráveis sobre nosso bem-estar. Não se trata apenas de tornar um lugar visualmente mais bonito, mas de transformar a experiência cotidiana de habitá-lo.

Ao mesmo tempo, a Organização Mundial da Saúde estimou, em 2025, que mais de um bilhão de pessoas viviam com transtornos mentais em todo o planeta. Ansiedade e depressão representam uma carga significativa para indivíduos, famílias e economias. Seria irresponsável estabelecer uma relação direta entre esse cenário e o desaparecimento das cores. Não existem evidências suficientes para afirmar que a neutralização estética esteja provocando uma epidemia de sofrimento emocional. Mas talvez estejamos olhando para duas manifestações de uma sociedade cada vez mais orientada pela eficiência, pelo controle, pela padronização e pela redução de riscos. Uma sociedade que tenta organizar tudo, otimizar tudo, tornar tudo mais previsível. Inclusive a aparência dos lugares onde vivemos.

O artista e escritor britânico David Batchelor já discutia essa tensão no livro Chromophobia, publicado em 2000. Sua reflexão explora como a cultura ocidental frequentemente associou as cores ao infantil, ao feminino, ao vulgar e ao superficial, enquanto reservava à neutralidade uma espécie de superioridade intelectual e estética. Mais de duas décadas depois, essa perspectiva parece especialmente atual. O que explica a ideia de que um apartamento inteiramente bege demonstra mais bom gosto do que uma casa colorida? Por que um automóvel preto transmite mais prestígio do que um amarelo? Em que momento passamos a confundir discrição com sofisticação e expressão com falta de refinamento? Essas associações não são universais nem naturais. São construções culturais, continuamente reforçadas pelas indústrias, pelo design, pela publicidade e pelo próprio comportamento de consumo.

Existe também uma dimensão afetiva que os números não conseguem explicar por completo. Uma casa antiga cheia de objetos pode guardar memórias que um ambiente impecavelmente neutro ainda não teve oportunidade de construir. Uma festa infantil de cores desencontradas pode carregar uma espontaneidade que uma composição perfeitamente coordenada não pretende reproduzir. O mesmo vale para uma rua, uma praça ou um bairro. As cores, assim como as texturas, os materiais e as intervenções de seus moradores, podem ajudar a construir identidade e pertencimento. Isso não significa romantizar ambientes antigos, desorganizados ou degradados. Significa reconhecer que a experiência humana de um espaço envolve mais do que sua funcionalidade. Uma cidade precisa funcionar, mas também precisa ser vivida, reconhecida e apropriada por quem a habita.

Talvez seja aí que essa discussão encontre sua dimensão mais importante para o design, a arquitetura e as marcas. Durante décadas, aprendemos a pensar a estética como uma ferramenta de diferenciação, reconhecimento e desejo. Mas ela também pode ser compreendida como parte da experiência emocional e cultural que oferecemos à sociedade. Uma marca não influencia o mundo apenas pelo que comunica em campanhas publicitárias. Ela influencia o mundo pelos objetos que produz, pelos espaços que constrói, pelos ambientes que transforma e pelos códigos culturais que ajuda a popularizar. A escolha entre uma superfície cinza e uma colorida não é, isoladamente, uma decisão moral. Mas a repetição de determinadas escolhas, em escala industrial, tem o poder de modificar a paisagem visual de uma geração inteira.

O problema, portanto, não seja exatamente o desaparecimento das cores. Afinal, uma parede branca também pode ser acolhedora, uma casa minimalista pode ser cheia de afeto e um ambiente excessivamente colorido pode produzir desconforto. O problema é quando uma única linguagem estética passa a dominar tantas dimensões da vida que começamos a confundir preferência com padrão, e padrão com evolução. Quando o sofisticado precisa ser discreto, o contemporâneo precisa ser neutro e o organizado precisa parecer vazio, deixamos de discutir gosto para começar a discutir uniformização.

Não precisamos voltar aos anos 1980, transformar todas as casas em arco-íris ou rejeitar a beleza do minimalismo. Talvez precisemos apenas recuperar a liberdade de construir ambientes que reflitam a diversidade de quem somos, em vez de reproduzir indefinidamente a mesma ideia de sofisticação. Porque, no fim, a pergunta não é se o mundo está ficando cinza mas por que começamos a achar que isso representa progresso e nos acostumamos com isso?

Refs.:

Cath Sleeman (2020). Colour & Shape: Using Computer Vision to Explore the Science Museum Group Collection.
BASF (2026). Color Report for Automotive OEM Coatings 2025.
Jonauskaite, D. & Mohr, C. (2025). Do we feel colours? A systematic review of 128 years of psychological research linking colours and emotions. Psychonomic Bulletin & Review.
South, E. C. et al. (2018). Effect of Greening Vacant Land on Mental Health of Community-Dwelling Adults. JAMA Network Open.
World Health Organization (2025). Over a billion people living with mental health conditions.
David Batchelor (2000). Chromophobia. Reaktion Books.

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