O salão da Sueli funciona numa garagem adaptada. Tem dois secadores, um espelho grande e uma TV ligada que ninguém assiste. A vó vai toda quinta fazer escova. Hoje chegou mais cedo e ficou parada na porta, olhando a rua.
Do outro lado da calçada, as irmãs do 302 se cruzaram sem se cumprimentar. Uma entrou na padaria. A outra ficou mexendo na bolsa, como se tivesse perdido alguma coisa lá dentro.
— Sueli, as meninas do 302 continuam sem se falar. Já vai fazer um ano. Começou com uma discussão no grupo da família e acabou ali.
— Polarização, dona. Tá todo mundo assim.
— Isso é nome de doença?
— Quase. — Sueli prende a capa no pescoço dela. — A senhora lembra como era o futebol? O corintiano e o palmeirense iam no mesmo bar. Xingavam o juiz juntos. No fim, um pagava a cerveja do outro.
— Lembro. Meu falecido fazia isso toda semana.
— Pois então. Agora eles nem sentam na mesma mesa.
— Mas as duas lá do 302 discordam de quê, afinal?
— Aí é que tá. Se a senhora perguntar pra cada uma o que ela quer, as duas vão dizer a mesma coisa: posto de saúde funcionando, arroz mais barato, rua sem buraco.
— Então brigam por quê?
— Porque virou time. Já não importa tanto o que a pessoa pensa. Importa de que lado ela tá. Se a irmã tá do outro lado, tudo que ela fala parece errado. Até quando tá certo.
A vó pensou um pouco e cruzou as mãos no colo.
— Igual sogra que não gosta da nora. A nora pode fazer o melhor pudim do bairro que a sogra vai achar que faltou açúcar.
— É isso mesmo. E sabia que os pesquisadores perguntam quase isso? Querem saber se a pessoa ficaria chateada se a filha casasse com alguém do outro lado.
— E o povo tem coragem de responder?
— Responde. E tem muita gente que diz que ficaria, sim.
— No meu tempo o problema era casar com gente de outra religião. Ou torcedor do time rival. Tô vendo que voltou, só que com outra camisa.
Sueli ligou o secador e falou mais alto por cima do barulho.
— Mas li uma coisa esse ano que me deixou com a pulga atrás da orelha. Uma faculdade de São Paulo comparou duas pesquisas, uma de 2006 e outra de agora. Os que gostam muito de um lado e detestam o outro eram 19 de cada 100. Agora são 31.
— Cresceu bastante.
— Cresceu. Mas faz a conta, dona.
— Sobram 69.
— Pois é. A maioria não tá nesse ringue.
— Então por que parece que tá todo mundo brigando?
— Porque quem grita aparece mais. E o resto não tá necessariamente em paz, não. A pesquisa mostrou que cresceu o número de gente que não sente nada por nenhum dos lados. E de gente que não suporta nenhum dos dois.
— Igual eu com novela das nove. Antes eu brigava com a vilã pela televisão. Hoje desligo e vou dormir.
— Então a senhora é das indiferentes.
— Sou das cansadas. Não é a mesma coisa.
Sueli parou a escova no meio, com a mecha ainda enrolada.
— Sabe que eu nunca tinha pensado nisso? Eu achava que tinha metade de cada lado. Que era um cabo de guerra.
— Cabo de guerra, minha filha, é dois puxando e o resto da rua olhando. E quem tá olhando nem sempre torce. Às vezes só quer que acabe logo pra poder passar.
A vó se olhou no espelho e ajeitou uma mecha que a Sueli ainda nem tinha tocado. — Antigamente a gente brigava por causa da ideia e fazia as pazes no almoço de domingo. Agora a ideia é o de menos. A briga é pela camisa. Se alguém perguntasse pras duas do 302 o que elas querem da vida, elas iam dizer a mesma coisa. Só não querem dizer juntas.
Polarização afetiva é quando as pessoas passam a gostar cada vez mais do próprio grupo político e a rejeitar cada vez mais o grupo rival, não importa o quanto discordem de fato nas ideias. A expressão ganhou força com um estudo de Shanto Iyengar, Gaurav Sood e Yphtach Lelkes publicado em 2012 na revista Public Opinion Quarterly. Ela é diferente da polarização ideológica, que mede a distância entre as opiniões. Uma das formas de medir é perguntar se a pessoa aceitaria um genro ou uma nora do lado oposto. No Brasil, estudos com dados de 2002 a 2018 concluíram que a polarização cresceu, mas é principalmente afetiva, e ficou bem mais visível em 2018. Uma pesquisa da FESPSP divulgada em 2026 mostrou que a fatia de eleitores que gosta de um campo e rejeita o outro subiu de 19% em 2006 para 31%. Os outros 69% estão fora desse perfil. No mesmo período, a indiferença cresceu 7 pontos e a rejeição aos dois campos, 3 pontos.






