Nem tudo precisa servir para alguma coisa

Transformamos até o descanso em produtividade. Talvez o próximo luxo seja fazer algo que não oferece absolutamente nada em troca.

Em algum momento, começamos a acreditar que praticamente tudo o que fazemos precisa produzir algum resultado. Caminhamos para contar passos, lemos para adquirir conhecimento, viajamos para acumular experiências e transformamos hobbies em oportunidades de desenvolvimento pessoal. Até descansar ganhou uma finalidade: recuperar energia para trabalhar melhor no dia seguinte. Parece que perdemos a capacidade de fazer alguma coisa simplesmente porque temos vontade.

Uma pesquisa da Rowan University, apresentada recentemente pela Oxygen, oferece uma perspectiva interessante sobre esse comportamento. Ao investigar a relação da Geração Z com conteúdos aparentemente inúteis nas redes sociais, pesquisadores discutem o fenômeno da antigratificação. A hipótese é que vídeos absurdos, repetitivos e desprovidos de qualquer finalidade podem funcionar como uma espécie de alívio diante da saturação de conteúdos que tentam permanentemente ensinar, vender, inspirar ou motivar.

É uma inversão curiosa. Passamos anos discutindo como as redes sociais estavam destruindo nossa capacidade de concentração com conteúdos superficiais. Agora, surge a possibilidade de que parte desse consumo represente justamente uma reação ao excesso de estímulos que exigem alguma coisa de nós.

Talvez o problema não seja apenas a quantidade de informações que recebemos, mas a obrigação de encontrar utilidade em praticamente todas elas.

A internet se tornou uma gigantesca máquina de aperfeiçoamento pessoal. Existem vídeos ensinando a organizar a rotina, melhorar relacionamentos, administrar dinheiro, desenvolver inteligência emocional, aumentar a produtividade e aproveitar melhor as horas do dia. Até o lazer passou a ser apresentado como uma oportunidade de crescimento. Não basta cozinhar, é preciso dominar técnicas. Não basta correr, é necessário superar marcas. Não basta ler, devemos terminar determinado número de livros por ano.

O que começou como uma democratização extraordinária do conhecimento também ajudou a consolidar uma cultura na qual qualquer atividade pode ser transformada em indicador de desempenho.

Essa lógica não surgiu com as redes sociais. Ela apenas encontrou nelas um ambiente particularmente eficiente para se multiplicar. O universo corporativo já havia incorporado a ideia de que precisamos estar permanentemente evoluindo. O vocabulário do trabalho atravessou as fronteiras do escritório e passou a organizar nossa vida pessoal. Temos metas de saúde, estratégias de relacionamento, planejamento de férias e indicadores de bem-estar. Administramos nossa existência como se fôssemos empresas que precisam apresentar resultados trimestrais.

Até nossos momentos de descanso parecem exigir uma justificativa.

O mercado percebeu rapidamente essa oportunidade. A indústria do bem-estar, os aplicativos de monitoramento, as plataformas educacionais e os produtores de conteúdo oferecem soluções para praticamente qualquer aspecto da vida. Existe sempre alguma coisa que podemos melhorar, medir ou otimizar. A promessa é sedutora porque transforma desenvolvimento pessoal em um projeto permanente, no qual nunca chegamos exatamente ao resultado esperado.

A consequência é que começamos a experimentar uma espécie de produtividade emocional. Não basta estar bem. Precisamos demonstrar que estamos trabalhando para ficar ainda melhores.

Nesse contexto, o crescimento de conteúdos que não prometem absolutamente nada ganha outra dimensão. Um vídeo de poucos segundos mostrando uma situação completamente absurda pode oferecer uma experiência que se tornou surpreendentemente rara: consumir alguma coisa sem a expectativa de aprender, melhorar ou conquistar qualquer resultado.

Isso não significa que esses conteúdos sejam necessariamente saudáveis. As mesmas plataformas que oferecem momentos de distração são projetadas para prolongar nosso tempo de permanência e transformar atenção em receita publicitária. A aparente ausência de finalidade para quem assiste continua perfeitamente alinhada aos objetivos econômicos de quem distribui o conteúdo.

Existe uma ironia nisso. Até nossa tentativa de escapar da produtividade pode acabar produzindo resultados para alguém.

Mas a discussão ultrapassa o universo digital. Talvez estejamos perdendo a capacidade de reconhecer o valor de experiências que não podem ser convertidas em benefícios mensuráveis. Conversar durante horas sem chegar a nenhuma conclusão. Caminhar sem registrar a distância percorrida. Ler um romance sem publicar uma resenha. Aprender alguma coisa sem transformar o conhecimento em vantagem competitiva.

São atividades que sempre fizeram parte da experiência humana, mas que parecem progressivamente ameaçadas pela necessidade de justificar nosso tempo.

O próprio conceito de hobby ilustra essa transformação. Uma atividade que deveria existir pelo prazer de sua realização frequentemente se transforma em mais uma obrigação. Quem gosta de fotografia pode sentir que precisa publicar suas imagens. Quem cozinha pode considerar a possibilidade de produzir conteúdo. Quem pratica esportes encontra aplicativos que comparam seu desempenho com o de milhares de desconhecidos.

A possibilidade de monetizar praticamente qualquer interesse pessoal também tornou mais difícil preservar atividades que não precisam gerar retorno financeiro.

Naturalmente, aprender, desenvolver habilidades e estabelecer objetivos são comportamentos importantes. A questão não está na produtividade em si, mas na dificuldade crescente de reconhecer que ela não precisa determinar todas as nossas escolhas.

Talvez tenhamos confundido aproveitar a vida com aproveitar economicamente cada minuto dela.

Para as marcas, existe uma provocação interessante. Durante décadas, a comunicação procurou demonstrar como produtos e serviços poderiam melhorar a vida das pessoas. Mais recentemente, essa promessa ganhou contornos ainda mais ambiciosos. Marcas passaram a oferecer transformação pessoal, pertencimento, propósito e desenvolvimento. Tudo precisa representar alguma coisa maior.

Mas será que os consumidores realmente desejam que cada experiência carregue uma mensagem, uma lição ou uma oportunidade de evolução?

Talvez exista espaço para marcas que simplesmente proporcionem prazer, diversão ou entretenimento, sem a necessidade de transformar cada interação em uma experiência supostamente transformadora.

A pesquisa sobre antigratificação não comprova que estamos diante de uma revolução cultural contra a produtividade. Entretanto, oferece um ponto de partida interessante para questionar por que passamos a exigir tanto de atividades que poderiam existir sem qualquer finalidade.

Em uma sociedade que aprendeu a transformar praticamente tudo em desempenho, talvez a verdadeira provocação seja recuperar o direito de fazer alguma coisa que não nos torne mais inteligentes, saudáveis, produtivos ou interessantes.

Alguma coisa que simplesmente nos faça felizes e que não precise servir para absolutamente nada.