A causa da solidão pode estar no seu briefing

A comunicação promete proximidade mas muitas vezes gera o isolamento. Marcas podem e devem usar seu poder e alcance para cuidar de pessoas e não só de consumidores.

O brasileiro passa 9h32 por dia online — é o povo mais conectado do mundo. Só no WhatsApp, são 147 milhões de usuários ativos. A impressão é de que nunca estivemos tão próximos. Mas a verdade é o contrário: nunca estivemos tão sozinhos.

Pesquisas mostram que metade dos jovens entre 13 e 24 anos sente solidão de forma crônica, e esse isolamento não é só um incômodo passageiro. Ele alimenta índices de depressão e pode ser fator decisivo para o suicídio, hoje a segunda maior causa de morte entre jovens no mundo. A OMS já classifica a solidão como epidemia de saúde pública, comparando seus efeitos ao de fumar 15 cigarros por dia.

E onde entra a comunicação nisso? O feed, que promete conexão, entrega apenas relações frágeis e algoritmizadas. Likes sem abraço, DM sem olho no olho, anúncios sem vínculo humano real. A lógica da comunicação muitas vezes intensifica a sensação de não pertencimento, reforçando padrões irreais e identidades inalcançáveis.

Se sentir conectado e pertencente tem a ver com muito mais do que curtidas. Tem a ver com diversidade, inclusão, linguagem e signos. Uma comunicação ainda majoritariamente branca, hetero, estereotipada e normativa não gera desejo: gera gatilho. Negativo, inconsciente, silencioso — mas real. Essa discussão parece anos 2000, mas até hoje é desafio em muitas reuniões de marca e agência. E enquanto não for enfrentada de verdade, vai continuar minando saúde mental e qualidade de vida.

É claro que transformações maiores, sociais, econômicas, educacionais,  ainda são necessárias. Mas no campo da comunicação, se conseguimos moldar desejos de consumo, também podemos fomentar comportamentos de saúde e de vida.

Já fomos disruptivos antes. Lembra quando a MTV pausava a programação por 1h para mandar você ler um livro? Imagina isso atualizado:

  • Uma marca de tênis que só libera desconto depois de uma caminhada registrada.
  • Uma cafeteria que recompensa quem passa 1h sem tela.
  • Uma marca de suplementos que dá benefícios para quem cumpre a dose diária de endorfina.
  • Um programa de fidelidade de posto de gasolina ou seguro que te dá pontos porque você dirige sem mexer no celular.
  • Um sistema de cashback que libera desconto num próximo livro se você mandar um áudio contando o que sentiu ao terminar o último.

Não é só sobre targets. É sobre pessoas. Cuidar do consumidor como ser humano e, não apenas como audiência, é hoje não só o ato mais responsável, e sim, mais sustentável, que uma marca pode praticar.

Se a publicidade continua estabelecendo fantasias em seus filmes e reels, como ruas sem trânsito, corpos perfeitos, open box mágicos, milionários entrando de graça em áreas VIP (que poderiam pagar),  será que, apesar de estar na vertical e com transições até que nativas, não estamos só colocando um filtro numa era de anúncios que seguem oprimindo e distanciando o público de uma forma que afeta a saúde e que não é sustentável para a sobrevivência mental dessa galera?

Talvez esteja na hora de nos responsabilizarmos por manter não apenas uma marca coesa e um público fiel, mas também um público saudável. É desafiador, mas é possível. Bem possível.