Durante muito tempo, tecnologia foi vendida como uma forma de terceirizar esforço. Primeiro terceirizamos parte do esforço físico, depois o operacional e agora começamos a terceirizar cada vez mais o cognitivo. A calculadora fez contas, o Google encontrou informação e o GPS encontrou caminhos, mas a inteligência artificial começou a fazer algo diferente porque ela não apenas encontra o material que precisamos para chegar a uma resposta. Ela organiza a própria resposta.
Hoje já não é necessário procurar dez fontes, abrir quinze abas, comparar argumentos, organizar uma estrutura e começar a escrever para obter algo intelectualmente apresentável. Podemos explicar um problema para uma máquina e pedir que ela pesquise, sintetize, compare, estruture e escreva. É difícil não achar isso extraordinário, principalmente para quem trabalha diariamente com informação, estratégia, criatividade ou conhecimento. O problema começa justamente quando aquilo que nos poupa tempo também começa a nos poupar do processo que produzia parte do nosso pensamento.
Entre dois terços e 90% dos estudantes americanos já usam inteligência artificial em atividades escolares, segundo os dados reunidos pela Oxygen. A reação de algumas instituições tem sido quase analógica, com redações escritas à mão, dentro da sala de aula e sob supervisão. À primeira vista, parece mais um capítulo do conflito previsível entre educação e tecnologia, uma nova versão do professor dizendo que não poderíamos usar calculadora porque não andaríamos com uma no bolso. Só que agora andamos com algo muito diferente no bolso, porque não carregamos apenas uma máquina que calcula. Carregamos uma máquina que argumenta.
Existe uma diferença importante entre terceirizar uma tarefa depois de aprender a fazê-la e nunca desenvolver plenamente essa capacidade porque a terceirização veio antes. O psicólogo Ronald Kellogg descreve a escrita como uma tecnologia para pensar. Escrever, nessa perspectiva, não seria simplesmente registrar uma ideia que já existe pronta dentro da cabeça, porque o próprio esforço de organizar palavras, construir relações, perceber contradições e reescrever participa da formação do pensamento. Se isso estiver correto, a página em branco talvez nunca tenha sido apenas um problema de interface esperando uma tecnologia capaz de eliminá-la. Talvez ela tivesse uma função.
Um estudo do MIT citado pela Oxygen encontrou menor atividade cerebral, pior lembrança do conteúdo produzido e menor sensação de autoria entre participantes que realizaram uma tarefa de escrita usando um chatbot. É cedo para transformar um estudo em uma sentença definitiva sobre os efeitos cognitivos de uma tecnologia que ainda estamos aprendendo a incorporar à rotina, mas os resultados são suficientes para levantar uma pergunta importante sobre aquilo que acontece quando eliminamos o esforço necessário para chegar a uma resposta.
A pergunta ganha relevância porque estamos entrando rapidamente numa cultura em que pensar com IA pode se tornar tão natural quanto pesquisar no Google. Terminamos uma reunião e pedimos um resumo, recebemos um documento e pedimos os principais pontos, precisamos tomar uma decisão e solicitamos prós e contras, temos uma ideia e pedimos uma estrutura, não sabemos como começar um texto e recebemos cinco possibilidades antes mesmo de tentar a primeira. Individualmente, cada uma dessas decisões é perfeitamente racional e produz um ganho de produtividade evidente. O risco aparece quando a soma dessas pequenas terceirizações começa a retirar justamente os momentos em que construíamos algumas das nossas capacidades.
Ler algo longo porque não havia resumo, tentar lembrar porque não havia busca, se perder porque não havia GPS, escrever uma primeira versão ruim porque não havia uma primeira versão boa esperando num prompt e permanecer algum tempo sem saber a resposta não eram necessariamente experiências agradáveis. Também não eram necessariamente desperdício. Parte do aprendizado acontecia dentro desse atrito, e talvez seja cedo demais para sabermos o que acontece quando uma tecnologia começa a eliminá-lo de dezenas de pequenas atividades intelectuais simultaneamente.
Existe uma tendência compreensível de tratar qualquer defesa desse esforço como nostalgia, como se questionar determinado uso da IA significasse defender máquinas de escrever, enciclopédias e mapas de papel. A questão não é escolher entre pensar sozinho e pensar com inteligência artificial, porque essa escolha provavelmente já passou. A questão mais interessante é entender qual parte do pensamento não deveríamos terceirizar mesmo quando tecnicamente podemos.
Isso talvez seja especialmente importante no trabalho intelectual. Estratégia, criatividade, jornalismo, pesquisa, programação, direito, publicidade e tantas outras atividades estão descobrindo uma capacidade extraordinária de produzir mais com menos gente e em menos tempo, mas existe uma diferença enorme entre usar inteligência artificial para acelerar pensamento e usá-la para evitar pensamento. Uma pessoa experiente consegue olhar para uma resposta aparentemente excelente da IA e perceber que alguma coisa está errada, tensionar uma premissa, identificar uma generalização, rejeitar uma solução óbvia, adicionar contexto e formular uma pergunta melhor. A questão mais difícil é como alguém desenvolverá essa capacidade crítica se a máquina estiver presente desde o começo da formação fazendo justamente a parte difícil.
Talvez esse seja um dos paradoxos mais interessantes da IA. Quanto melhor ela ficar, menos precisaremos exercitar determinadas capacidades e, quanto menos exercitarmos essas capacidades, mais dependentes podemos nos tornar dela. Isso não significa necessariamente que ficaremos menos inteligentes, porque tecnologias cognitivas sempre modificaram a maneira como pensamos. A escrita mudou nossa relação com a memória, calculadoras mudaram nossa relação com números, buscadores mudaram nossa relação com conhecimento e GPS mudou nossa orientação espacial. A inteligência artificial provavelmente fará algo semelhante, mas numa escala muito maior, porque não automatiza apenas uma operação específica. Ela começa a participar do processo que conecta informação, raciocínio e expressão.
Por isso, a discussão relevante talvez não seja simplesmente se devemos ou não usar inteligência artificial, mas o que queremos continuar sabendo fazer depois que ela souber fazer melhor do que nós. Escrever pode ser uma dessas coisas, pesquisar pode ser outra e construir um argumento do zero talvez também seja. Existe algo muito sedutor em receber uma resposta antes de terminar de formular a pergunta, principalmente quando a resposta é boa, rápida e está sempre disponível.
Passamos os últimos anos estupefatos com tudo o que a inteligência artificial está aprendendo a fazer. Talvez esteja chegando a hora de prestar a mesma atenção ao que nós estamos deixando de aprender.







