A teoria dos botões placebo e a nossa eterna busca pelo controle

Dos semáforos que não obedecem aos algoritmos que parecem nos servir, criamos um mundo onde podemos apertar todos os botões. Mas talvez nunca tenhamos decidido tão pouco sobre as regras do jogo.

Em Nova York, durante anos, milhares de pessoas apertaram botões de pedestres acreditando que estavam solicitando a abertura do semáforo. Em muitos cruzamentos, entretanto, aqueles dispositivos já não interferiam no tempo da travessia. O sinal abriria de qualquer maneira, independentemente da insistência de quem aguardava na calçada. O mais curioso é que os botões continuavam ali, disponíveis, convidativos e aparentemente funcionais. Bastava apertar, esperar alguns segundos e assistir ao trânsito parar. A sequência era convincente o suficiente para criar uma relação de causa e efeito que, em determinadas situações, simplesmente não existia.

No Brasil, a história não é tão diferente. Em 2014, uma investigação da Folha de S.Paulo testou botoeiras em 35 cruzamentos da cidade e identificou que apenas nove produziram alguma diferença no tempo de espera. Na Avenida Sumaré, por exemplo, havia horários em que o sinal de pedestres abria automaticamente, independentemente de alguém apertar o botão. Isso não significa que todas as botoeiras sejam falsas ou inúteis. Muitas cumprem funções específicas dentro da programação semafórica, inclusive registrando a necessidade de travessia. Mas o fenômeno permanece interessante: podemos executar uma ação, observar o resultado desejado e acreditar que fomos responsáveis por ele, mesmo quando o sistema já havia decidido o que aconteceria.

A curiosidade que inspirou esta reflexão veio de um Reel sobre os chamados botões placebo, que apresenta o fenômeno com bom humor. Mas a pergunta que ele provoca é consideravelmente maior do que a função de um semáforo. Por que precisamos tanto acreditar que estamos no controle?

Em 1975, a psicóloga Ellen Langer, da Universidade Harvard, publicou um estudo que se tornaria uma referência na psicologia comportamental: The Illusion of Control. A partir de experimentos envolvendo situações determinadas pelo acaso, Langer investigou como elementos associados à habilidade, à escolha e à participação poderiam levar pessoas a superestimar sua influência sobre acontecimentos que não controlavam. Em uma das situações estudadas, a possibilidade de escolher um bilhete de loteria alterava a maneira como participantes valorizavam aquela escolha, embora a probabilidade objetiva de ganhar permanecesse a mesma. O estudo ajudou a consolidar a ideia de que sentir controle e exercer controle são experiências diferentes.

A teoria recebeu revisões e questionamentos ao longo das décadas. Uma pesquisa publicada em 2021, envolvendo 17 experimentos e mais de 10 mil participantes, encontrou resultados que desafiam a noção de que oferecer escolhas, por si só, necessariamente aumenta a ilusão de controle. A ressalva é importante. Não existe uma fórmula psicológica universal capaz de transformar qualquer botão em sensação de poder. Mas há algo persistente no comportamento humano: nossa relação com a incerteza é suficientemente desconfortável para tornar a possibilidade de agir especialmente atraente, mesmo quando não sabemos exatamente quanto nossas ações interferem no resultado.

Talvez por isso tenhamos construído uma sociedade tão fascinada por painéis, indicadores, comandos, previsões e sistemas de acompanhamento. Monitoramos o sono, a alimentação, o desempenho profissional, a produtividade, o dinheiro, os relacionamentos e praticamente qualquer aspecto da existência que possa ser convertido em informação. Não se trata de negar os benefícios desses instrumentos. Muitos ampliam efetivamente nossa autonomia. O ponto é que, em algum momento, passamos a confundir a capacidade de acompanhar alguma coisa com a capacidade de controlá-la. Saber exatamente quantas horas dormimos não significa conseguir dormir melhor. Monitorar cada oscilação de um investimento não impede sua queda. Ter acesso permanente a informações sobre o mundo não significa compreender, muito menos determinar, o que acontece nele.

E a tecnologia tornou essa relação ainda mais interessante porque nos ofereceu uma quantidade aparentemente infinita de botões.

Desde os anos 2000, aprendemos a organizar nossa vida digital por meio de pequenas decisões que parecem inteiramente soberanas. Curtimos, deixamos de curtir, seguimos, bloqueamos, silenciamos, pulamos anúncios, selecionamos interesses e personalizamos interfaces. Cada gesto reforça a impressão de que estamos construindo uma experiência individual, cuidadosamente ajustada às nossas preferências. O problema é que existe uma segunda operação acontecendo simultaneamente, muito menos visível. Enquanto escolhemos o que consumir, as plataformas registram nossas escolhas para decidir o que oferecer depois. O que parece uma relação de comando também é uma relação de aprendizado sobre nosso comportamento.

A velha máxima de que, quando não pagamos pelo produto, somos o produto, simplifica uma realidade econômica mais complexa, mas continua apontando para uma contradição relevante. Muitas plataformas oferecem serviços gratuitos porque conseguem transformar atenção, dados e oportunidades de publicidade em receita. O usuário recebe uma experiência personalizada, enquanto a empresa aprende a prever quais conteúdos, estímulos e formatos têm maior probabilidade de mantê-lo presente. Não é necessário imaginar uma conspiração ou um algoritmo onipotente para perceber o conflito de interesses. Aquilo que parece nos servir também pode estar organizado para servir aos objetivos comerciais de quem administra o sistema. E, enquanto acreditamos estar domesticando o algoritmo, ele também pode estar condicionando nossos hábitos, nossa atenção e a maneira como descobrimos aquilo que desejamos.

É impossível não lembrar daqueles videogames da infância em que uma criança recebia o segundo controle para acreditar que estava participando, embora ele nem estivesse conectado. Ela apertava os botões, comemorava os movimentos na tela e se sentia parte da partida. A graça estava justamente na distância entre participação percebida e influência real. Décadas depois, construímos interfaces muito mais sofisticadas para oferecer sensações que, em alguns aspectos, lembram aquela experiência. A diferença é que nossos comandos digitais geralmente funcionam. O like é registrado, o perfil é bloqueado, o conteúdo desaparece. Mas controlar pequenas ações dentro de um sistema não significa controlar as regras que determinam seu funcionamento. Podemos decidir o que fazer com aquilo que aparece na tela sem decidir inteiramente por que aquilo apareceu. Talvez sejamos o segundo jogador de uma partida na qual nosso controle funciona, mas as regras, o cenário e boa parte dos próximos movimentos pertencem a outra pessoa.

Essa obsessão pelo controle também reorganizou nossa relação com a própria identidade. As redes sociais nos deram a possibilidade de editar a maneira como somos apresentados ao mundo com uma sofisticação que antes era praticamente exclusiva das marcas. Escolhemos fotografias, ângulos, legendas, momentos, enquadramentos e até silêncios. Podemos apagar uma publicação, reorganizar uma sequência, esconder uma fase da vida ou construir uma narrativa visual que pareça mais coerente do que a experiência que efetivamente vivemos. O feed se tornou uma espécie de autobiografia permanentemente revisável, com direção de arte, posicionamento e gestão de reputação. Nunca tivemos tanto controle sobre a maneira como nos apresentamos e tão pouco sobre a maneira como seremos interpretados. Podemos editar a imagem, mas não a percepção. Podemos organizar a narrativa, mas não determinar o significado que os outros atribuirão a ela.

A inteligência artificial acrescentou uma nova camada a essa fantasia. Pela primeira vez, milhões de pessoas passaram a interagir cotidianamente com sistemas capazes de responder a instruções complexas em linguagem natural. Pedimos um texto, exigimos outro tom, corrigimos uma frase, solicitamos uma imagem, rejeitamos o resultado e mandamos refazer. A máquina responde, ajusta, pede desculpas e tenta novamente. Existe algo profundamente sedutor nessa experiência de comando. Uma inteligência aparentemente inesgotável, disponível a qualquer momento e disposta a trabalhar segundo nossas instruções. Mas a influência que exercemos sobre suas respostas não equivale ao controle sobre seus dados, seus critérios internos, suas limitações ou as decisões tomadas por quem desenvolve o sistema. Podemos orientar o resultado sem compreender completamente o processo. E talvez essa seja uma das formas mais contemporâneas de ilusão de controle: sentir-se poderoso diante de uma tecnologia cujo funcionamento permanece, em grande parte, fora do nosso alcance.

Os carros autônomos tornam a contradição ainda mais curiosa. Durante mais de um século, dirigir representou uma experiência bastante concreta de autonomia. Segurar o volante, acelerar, frear e escolher o caminho eram manifestações físicas da capacidade de determinar o próprio deslocamento. Agora, desenvolvemos tecnologias que prometem ampliar nossa liberdade justamente ao retirar parte dessas decisões de nossas mãos. Em sistemas efetivamente autônomos, escolhemos o destino, mas delegamos a condução. Abrimos mão do controle operacional em troca de uma promessa de segurança, conveniência e tempo disponível. É uma inversão importante: talvez não queiramos controlar cada movimento, mas controlar o resultado. E isso revela que autonomia não significa necessariamente executar todas as ações, mas poder decidir quais delas desejamos delegar, a quem e sob quais condições.

É aqui que os botões placebo deixam de ser uma curiosidade urbana e se tornam uma metáfora desconfortável sobre a maneira como organizamos a vida contemporânea. Passamos décadas aperfeiçoando interfaces que nos fazem sentir no comando, mas talvez tenhamos dedicado menos tempo a perguntar quem determina as regras dentro das quais nossas escolhas acontecem. Participar não é necessariamente decidir. Personalizar não significa controlar. Receber uma resposta não garante ter sido compreendido. E poder apertar um botão não significa que o sistema esteja organizado para atender aos nossos interesses.

Isso não quer dizer que estejamos condenados à submissão ou que toda tecnologia seja uma versão elaborada de um controle desconectado. Seria uma conclusão fácil demais. Temos agência real, podemos modificar comportamentos, influenciar sistemas, abandonar plataformas e construir alternativas. A questão é reconhecer que a autonomia depende também de compreender os limites da própria influência. Talvez o maior risco não esteja em perder o controle, mas em deixar de perceber onde ele termina. Porque, quando confundimos participação com poder, podemos aceitar com surpreendente tranquilidade sistemas que nos oferecem inúmeras escolhas sem permitir que questionemos aquilo que realmente importa.

No fundo, o botão placebo funciona como uma pequena demonstração de uma necessidade humana muito maior. Queremos previsibilidade em um mundo imprevisível, segurança diante do desconhecido e alguma confirmação de que nossas ações produzem consequências. É uma fome compreensível, talvez inevitável. O problema começa quando a sensação de controle se torna tão satisfatória que deixamos de investigar se ela corresponde à realidade. Entre a autonomia verdadeira e o conforto de acreditar que decidimos, nem sempre escolhemos a primeira.

Nossa maior fome nunca foi a liberdade de fazer qualquer coisa, mas a tranquilidade de acreditar que alguma coisa ainda depende completamente de nós. Talvez o botão placebo mais eficiente da história não seja aquele que não funciona. Seja aquele que funciona suficientemente para nunca desconfiarmos de quem realmente está jogando.