Por vários anos, parecia automático postar: o almoço em família, o café bonito, o look do dia, o vai e volta do cachorro, a festa, a indignação da segunda-feira ou até o clássico e nostálgico #sextou. A vida virou um fluxo contínuo de registros públicos, fazendo jus a tese que para existir é necessário comprovar.
Entretanto, algo mudou, cada vez mais gente tem postado menos. Não, esse texto não vai ser uma crítica a conteúdo gerado por IA ou algo do tipo. As pessoas reais estão sumindo ou ocultando suas camadas, não por falta de histórias mas pelo excesso de ruído. O feed deixou de ser um espaço social e virou (faz tempo) uma vitrine profissional, um cardápio de performances, anúncios (de lifestyle, namoro, guia de viagens, etc), vídeos calculados para viralizar e conteúdos otimizados para algoritmos, não necessariamente para pessoas.

O que antes já foi sobre conexão, postar para alguns tios e primos também vibrarem por você, virou métrica. O que era espontâneo virou estratégia. Afinal, atire a primeira pedra quem não posta algo no temido feed e, mesmo que inconscientemente, não aguarda uma série de curtidas para que o conteúdo não flop. Bem, uma hora essa conta não ia fechar e o cansaço chegou.
Existe um movimento silencioso acontecendo, não é nada coordenado, talvez você já até faça parte disso. Menos postagens públicas. Mais grupos fechados. Mais mensagens diretas. Mais fotos que nunca vão ver a luz do feed. Isso não é isolamento digital, afinal, a gente segue dividindo a vida por aí, mesmo que em recortes menores, mas se trata de uma exposição e curadoria emocional.
A chamada fadiga de postar não nasce do tédio, mas da pressão cada vez mais constante de transformar momentos íntimos em algo apresentável e minimamente performático. Existem outras palavras que definem bem isso, algo curtível, comentável e até monetizável. A lógica da performance permanente esgota, cansa produzir toda hora. Essa fadiga não é só para “criadores de conteúdos”, os usuários comuns – como eu você – os mortais do feed, abastecemos essa mecânica.
A privacidade, que já foi padrão, virou luxo e agora começa a virar desejo. Isso não significa o fim das redes sociais, significa o fim de uma fase, a que tudo precisava ser mostrado, a fase em que desaparecer parecia irrelevância, a fase em que viver e publicar eram quase sinônimos. Isso é tão “2025” vibes.
Em contrapartida, o que surge no lugar não é o silêncio, mas a escolha, o filtro, a seleção. Escolher quando aparecer, para quem mostrar e o que merece – ou não – se tornar público. Óbvio que em cima disso, vem uma nova camada de pressão social e de produzir conteúdo embutida, mas explica um pouco porque você e seu amigo detém, no feed a última publicação feita no meio do ano passado ou retrasado.
Talvez estejamos reaprendendo algo básico que a internet nos fez esquecer por um tempo: nem tudo que importa precisa de plateia, Nnem tudo que é bom precisa ser registrado e compartilhado. Nem tudo o que somos precisa ser validado por um feed que não liga para você.
O sumiço das pessoas reais em nosso feed não é sinônimo delas sumindo da vida. Só estão saindo do palco e se dando a bendita e saudável desimportância.
