Ela estava olhando a nota do mercado com a testa franzida.
— Cinquenta e três reais. Só de polvilho e queijo.
O neto olhou do celular.
— Tá caro, vó?
— Antes eu fazia dez fornadas com isso.
Ele largou o celular.
— Vó, isso se chama inflação.
— Sei o que é inflação. Só não entendo por que acontece.
— Então deixa eu te explicar. Pensa assim: imagina que todo mundo na rua recebeu um dinheiro extra de presente. Todo mundo ao mesmo tempo.
— Que bom.
— Parece bom. Mas aí todo mundo quer comprar polvilho. O mercado tem a mesma quantidade de polvilho de sempre, mas agora tem mais gente querendo comprar. O que o dono do mercado faz?
Ela pensou um segundo.
— Aumenta o preço.
— Exato. Não porque ficou ganancioso. Porque pode. A fila tá grande.
Ela assentiu devagar, desconfiada.
— E quem mandou dar dinheiro pra todo mundo?
— Às vezes é o governo. Quando a economia trava — uma pandemia, uma crise — o governo injeta dinheiro pra as pessoas continuarem comprando. É como jogar lenha na fogueira pra não apagar. Só que aí a fogueira cresce mais do que devia.
— E o pão de queijo paga a conta.
— O pão de queijo, a gasolina, a conta de luz… tudo junto.
Ela dobrou a nota do mercado e guardou na bolsa.
— E esse tal de Banco Central que fica no jornal, o que ele faz?
— Ele é o bombeiro. Quando a fogueira cresce demais, ele joga água.
— Que água?
— Juros. Aumenta os juros. Aí fica mais caro pedir dinheiro emprestado, as pessoas compram menos, a fila no mercado diminui, o dono abaixa o preço.
Ela ficou quieta um momento.
— Então eles criam o problema e depois cobram pra resolver?
O neto abriu a boca. Fechou.
— Mais ou menos isso, vó.
— Na minha época a gente chamava de circo.
Ela levantou, foi pra cozinha, e começou a separar o polvilho.
— Vou fazer metade da receita. Inflação também pode ser na quantidade.
O neto olhou pra ela.
— Vó, isso tem nome. Chama shrinkflation.
— Chama esperteza — ela respondeu, sem virar.
A inflação é a alta generalizada e contínua dos preços. O Banco Central controla isso subindo ou baixando a taxa de juros — no Brasil, a Selic. Quando a Selic sobe, crédito fica mais caro, consumo cai, e os preços tendem a estabilizar. A shrinkflation — quando o produto fica menor mas o preço não cai — é uma forma silenciosa de inflação que a vó já conhecia antes do nome existir.







