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Matamos o discurso de atenção e agora vamos vender o significado

Depois de algumas décadas vendendo impressões e alcance, caímos no fracassado lugar comum e, como indústria, apostamos na “visionária” visão que agora (só agora) é sobre significado.

A tese de que a “attention economy morreu” é mais retórica do que fato, mas aponta para um incômodo real: a saturação. Dados recentes ajudam a ancorar isso. 41% dos americanos dizem estar tentando reduzir o tempo de tela segundo a Deloitte (Digital Media Trends 2025). 68% dos consumidores globais afirmam preocupação com coleta de dados de plataformas, de acordo com a GWI em parceria com o Financial Times. Entre a Geração Z, cerca de 33% deletaram ao menos um app social no último ano segundo relatórios da própria GWI. E, ainda assim, o tempo total gasto online segue estável ou crescente em diversos mercados. As pessoas não estão saindo da internet. Estão ficando mais exigentes com o que consomem.

O que muda não é a atenção como recurso econômico, mas o filtro. A abundância de conteúdo, acelerada por IA, achatou o valor médio de tudo que é produzido. É o brainrot pasteurizado. Estimativas de mercado indicam que mais de 60% do conteúdo digital já tem algum nível de assistência de IA, segundo análises de players como Adobe e HubSpot. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram queda no entusiasmo com conteúdo gerado por IA, saindo de patamares próximos de 60% de interesse para cerca de 25% em dois anos em estudos como os da PartnerCentric. Não existe crise de atenção. Existe inflação de mediocridade. Quando tudo parece igual, qualquer coisa padronizada se torna descartável.

É curioso que essa virada esteja sendo “descoberta” agora por relatórios de grupos como Ogilvy e a holding WPP, que por anos ajudaram a estruturar o modelo que prioriza volume, frequência e otimização de mídia. A mesma indústria que ensinou marcas a performar para algoritmo agora tenta reposicionar o jogo como intenção e significado. No meio disso, o mercado assiste a fusões, reestruturações e uma pressão crescente sobre margens que expõe o desgaste do modelo anterior. A indústria começa a se coçar para mudar mas (convenhamos) existe um certo cinismo em transformar correção de rota em tese visionária.

A provocação mais honesta aqui não é sobre “meaning economy”, mas sobre utilidade real. Conteúdo que resolve, ensina, organiza pensamento ou gera algum tipo de ganho concreto. Segundo o Edelman Trust Barometer, mais de 70% das pessoas esperam que marcas entreguem valor prático e não apenas comunicação. Ao mesmo tempo, dados mostram que conteúdos úteis podem gerar até 2x mais compartilhamentos orgânicos do que conteúdos puramente promocionais, segundo benchmarks da HubSpot. Métricas como alcance e impressões continuam relevantes, mas cada vez mais descoladas de impacto real. O mercado não abandonou essas métricas. Ele só perdeu a capacidade de fingir que elas bastam.

E tem um ponto que os próprios relatórios não conseguem capturar com precisão. A velocidade. Entre o momento em que um estudo é publicado e o momento em que ele vira discurso de mercado, o comportamento já mudou. Em um intervalo de dias, a dinâmica de consumo, distribuição e algoritmo pode se reorganizar. A indústria tenta fabricar verdades estáveis em um ambiente que se move em tempo real. Isso não invalida os dados. Mas exige mais leitura de contexto do que repetição de tese.

Se fosse um navio, a publicidade deveria ter começado a desacelerar há anos. Um cargueiro precisa cortar o motor centenas de quilômetros antes de chegar ao porto para conseguir manobrar com segurança. Mas, nos últimos 10 ou 20 anos, as gigantes da publicidade fizeram o oposto. Engataram a quinta marcha, aceleraram e torceram para que o modelo aguentasse. Agora navegam entre icebergs. E os icebergs não são mais concorrentes ou novas agências. São as big techs, com algoritmos opacos, mutáveis e imprevisíveis. Em meio à névoa de mudança constante de comportamento e engajamento, a indústria tenta refabricar fábulas e narrativas de controle. Mas, diferente do passado, ela já não dita mais a direção. Ela reage. E, muitas vezes, tarde.