Durante anos repetimos que a confiança estava em queda. O Edelman Trust Barometer 2026 mostra algo mais preciso e mais incômodo. A confiança não caiu. Ela se fechou.
Entramos oficialmente na era da insularidade.
As pessoas não deixaram de confiar. Elas passaram a confiar em menos gente. Quase sempre em quem pensa parecido, consome as mesmas fontes e reforça as próprias crenças. O estudo mostra que 7 em cada 10 pessoas afirmam relutar em confiar em alguém com valores, visões ou informações diferentes das suas.
Confiança hoje não é institucional. É tribal.
Não é mais sobre qual fonte é confiável. É sobre quem é do meu grupo.
O dado mais duro do relatório não fala de governos, marcas ou mídia. Fala de pessoas. Apenas 39% afirmam buscar ativamente informações de fontes com opiniões diferentes das suas. O resto evita, ignora ou rejeita. Discordar deixou de ser parte do debate. Virou ameaça.
Sem uma base mínima de fatos compartilhados, o diálogo vira ruído. A política entra em conflito permanente. A comunicação passa a operar em modo defensivo. Não estamos discutindo pontos de vista diferentes sobre a mesma realidade. Estamos discutindo a partir de realidades diferentes.
Outro ponto central do estudo é o crescimento contínuo da desigualdade de confiança por renda. Pessoas de alta renda confiam mais em instituições. Pessoas de baixa renda confiam menos. Esse gap vem aumentando de forma consistente desde 2012.
Não é ideologia. É experiência.
Quem sente que o sistema funciona tende a confiar. Quem convive com promessas quebradas, serviços precários e falta de retorno prático desconfia. O resultado é a formação de duas realidades paralelas dentro do mesmo país. Discursos que não se encontram. Campanhas que não aderem. Políticas públicas que não engajam.
Não porque comunicam mal. Mas porque falam com uma realidade que não é a de todos.
O relatório também mostra algo contraintuitivo. A confiança não migrou para o global. Ela encolheu. Hoje, ela se concentra em relações próximas. No empregador direto. Na comunidade. Em líderes visíveis. Em quem entrega algo concreto. Não por acaso, as empresas seguem sendo a instituição mais confiável em comparação a governo, mídia e ONGs, especialmente quando atuam de forma tangível na vida das pessoas.
Grandes discursos perderam força. Pequenas entregas ganharam peso simbólico.
Nesse cenário, o papel da liderança muda radicalmente. O líder confiável não é quem grita mais alto ou ocupa mais espaço. É quem consegue conectar bolhas sem se tornar refém de nenhuma delas. O estudo chama isso de trust broker. Na prática, é alguém que reconhece conflitos, valida diferenças e reduz tensão.
Não é neutralidade. É responsabilidade.
O recado final do Edelman Trust Barometer 2026 é simples e desconfortável. A crise atual não é de imagem. É de pertencimento. Não é sobre convencer todo mundo. É sobre reconstruir espaços mínimos de confiança compartilhada.
Enquanto insistirmos em mensagens genéricas para um mundo fragmentado, vamos continuar falando sozinhos.
A confiança não acabou. Ela só se escondeu nas bolhas.
Clique aqui para ver o estudo na íntegra.
