Quando uma companhia de teatro chega ao Castelo de Elsinore, na Dinamarca, Hamlet pede aos atores que encenem uma peça, batizada de “A Ratoeira”. O plano do príncipe é usar o texto para constranger seu tio, o rei Cláudio, e confirmar que foi ele o assassino de seu pai.
Nesta boa montagem de “Hamlet, sonhos que virão”, clássico de Shakespeare em cartaz no Nu Cine Copan, em São Paulo, o teatro dentro do teatro desnuda a estrutura de um poder que independe de época, país ou sistema.
O espaço onde o espetáculo acontece colabora para tal percepção, lembra um castelo em ruínas e seria ótimo que o Nubank o transformasse de vez em um teatro. O diretor Rafael Gomes aproveita a estrutura pra cercar a teatralidade da trama: há trilhos para locomover os atores; Lasers, fumaça, o espectro do Rei Hamlet é um holograma no lado esquerdo da cena; a morte de Ofélia ganha uma bela coreografia aérea para emular seu afogamento; e cenografia criada por André Cortez, em conjunto com a luz de Wagner Antônio, criam cômodos temporais tão belos quanto traiçoeiros.
Por se passar em um cinema abandonado, os elementos cinematográficos usados pelo diretor ganham um contorno metalinguístico com o público ocupando o lugar onde será a tela. A inversão abre diálogo com o peso que a imagem tem nos tempos de hoje. Nas redes sociais, tudo é mostrado, compartilhado, visualizado e criticado. Não há mentira que nos escape. E no cinema, os “efeitos especiais” estão cada vez mais sofisticados justamente para parecerem mais reais. Só que o uso engenhoso desse “set” não se sobrepõem à força do texto e uma de suas vértebras: quando tudo parece ser encenado, como separa-se a mentira e a verdade?

Em “Contra a transparência: um ensaio”, lançado neste ano, Hamilton Santos emula a obsessão moderna por ser “verdadeiro” de maneira integral e em todos os campos, como a política, a mídia e a vida pessoal, pode desestabilizar as relações humanas.
A tensão entre o ser e o parecer, conforme escreve o autor do ensaio, está materializada em uma das frases mais conhecidas da história da dramaturgia. Quando Hamlet (feito por Gabriel Leone na primeira temporada e que agora será interpretado por Ícaro Silva) diz “ser ou não ser”, desata-se diante dele o peso imoral que a verdade pode ter.
Essa frase me fez lembrar de “Som e Fúria”, a minissérie dirigida por Fernando Meirelles sobre os bastidores de uma companhia de teatro que está apresentando Hamlet. Em dado momento do ensaio, Jaques (Daniel de Oliveira) diz que o “ser ou não ser” tira a plateia da peça, e todo mundo só “vê um cara atuando”. Então o diretor (Felipe Camargo) confirma que é isso mesmo, “um cara atuando”, mas ele, enquanto ator, precisa decidir se Hamlet sabe que está sendo espionado pelo Rei Cláudio e Polônio ou não. São duas formas de interpretar. Na primeira, ele vai dizer a famosa frase para o assassino do pai. Na segunda, pra si mesmo.
Gabriel Leone – liderando um elenco que ainda tem Susana Ribeiro em excelente interpretação – ao que parece, escolhe a primeira opção. Sua loucura é uma das engrenagens que move a corrupção daquele reino, e o teatro – seu próprio espelho – reflete tal poder devorador que jamais exige transparência, pois a mentira, o engano e a ficção transformam a realidade em um animal dócil.
Não é para defender a verdade que nós sonhamos, lutamos, matamos e morremos? É mais fácil editar nossos ideais, valores morais, religião, ética, empatia e até a benevolência. Cada versão para manobrar a barbárie, que é inerente a qualquer indivíduo.
Quando se trata do poder, tudo é encenação.
Um exemplo? Jorge Messias foi rejeitado para a vaga no STF pelo senado. Foi a primeira vez, em 132 anos, que isso aconteceu. Alexandre de Moraes, antes tido como um ferrenho defensor da democracia, segundo a colunista do UOL, Daniela Lima, costurou um acordo com Flávio Bolsonaro (filho de um dos réus de Morais) e o presidente do Senado para impedir o indicado do governo de assumir uma cadeira no Supremo.
Se alguém escrevesse isso dias antes da votação, pareceria loucura? Pois é… Entre o “ser” e o “parecer”, eis os sonhos que todos os reinos mantêm por séculos: que haja algo de podre na Dinamarca.
Ficha Técnica
HAMLET, SONHOS QUE VIRÃO
de William Shakespeare
Direção: Rafael Gomes
Adaptação: Bernardo Marinho e Rafael Gomes
Tradução: Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harington
Elenco: Gabriel Leone, Ícaro Silva, Susana Ribeiro, Eucir de Souza, Samya Pascotto, Fafá Renó, Bruno Lourenço, Daniel Haidar, Felipe Frazão, Rael Barja, Davi Novaes, Conrado Costa, Giovanna Barros e Lua Dahora
Cenografia: André Cortez
Iluminação: Wagner Antônio
Figurino: Alexandre Herchcovitch
Visagismo: Pamela Franco
Trilha Sonora: Barulhista e Antonio Pinto
Design de som: Gabriel D’Angelo e Fernando Wada
Fotografias: Bob Wolfenson
Design Gráfico: Izabel Menezes
Diretor Assistente: Victor Mendes
Direção de Movimento: Fabrício Licursi
Direção de produção: Rafael Rosi
Coordenação de Produção: Luciana Fávero
Produtores associados: Gabriel Leone e Samya Pascotto
Produtor Executivo: Diogo Pasquim
Produção: Art’n Company, Substância Filmes e Viva do Brasil
Patrocínio master: Nubank
Patrocínio: Casa Almeida e Ibar




