Um corpo opcional

Artistas vão virar “espíritos” incorporados em suas melhores versões corporais? O mundo digital vai virar mesmo o próximo “real”?
Homem em três fases da vida sobre fundo 70 Homem em três fases da vida sobre fundo 70

Ontem assisti ao clipe de “In The Stars”, novo single dos Rolling Stones. A primeira coisa que me chamou atenção não foi a música. Foi ver Mick Jagger e Keith Richards nos anos 70 — jovens, com aquela energia crua — tocando uma música gravada agora, em 2026.
Deepfake. Tecnologia. Escolha criativa. Tudo junto.

Em outras palavras, os Stones convocaram os Stones dos anos 70 pra tocar a música que fizeram esse ano.

E aí travei.

Fiquei pensando no que isso significa de verdade. Não pra banda, não pra esse clipe específico. Mas pra qualquer artista que olhe pra essa produção e pense: peraí, eu também posso fazer isso.. Por que vou aparecer que nem uma uva passa se posso aparecer em versão uva-itália?
Porque pode.

Maquiagem… Cirurgias plásticas…Photoshop… não são exatamente isso? Fontes da juventude?

Existe uma obsessão velada no mundo do entretenimento com a imagem. Todo artista, em algum momento, escolhe uma versão de si mesmo que quer projetar. Uma fase. Um visual. Um período onde tudo encaixou. Madonna nos anos 80. Prince em Purple Rain. Os próprios Stones na era Exile.
Antes, essa versão durava enquanto durava. O tempo passava, o corpo mudava, e o público acompanhava — ou não.
Agora não precisa mais ser assim.
Com as ferramentas que existem hoje, um artista pode cravar a própria imagem num ponto específico do tempo e seguir com ela indefinidamente. Escolher ter 28 anos pra sempre, se quiser. Ou 35. Ou qualquer idade que considere a versão mais forte de si mesmo.
E tem algo estranho e fascinante nisso.

O que os Stones fizeram em “In The Stars” não é só um truque visual. É um ensaio do futuro.
Pensa no ABBA Voyage — o show em Londres onde os quatro se apresentam como avatares digitais de 1979, enquanto os músicos reais têm entre 73 e 78 anos. Ingressos esgotados por meses. O público aplaudindo de pé para pixels.
Pensa no holograma do Tupac em Coachella, em 2012. Um artista morto há 16 anos subindo ao palco e gerando mais conversa do que qualquer outro nome no lineup.
E agora os Stones, vivos, escolhendo deliberadamente aparecer jovens numa música nova.
O padrão tá claro.

Isso me leva a uma virada que acho mais interessante ainda: o que acontece com os atores nesse contexto?
Durante décadas, um ator emprestava o corpo a um personagem. Era o ofício. O físico, a voz, a presença — tudo entrava junto no pacote.
A IA muda essa equação.
Em breve — já está acontecendo, na verdade — um ator vai precisar emprestar só o espírito. A essência. O jeito de reagir, de construir uma cena, de dar vida a algo. O corpo vira dado. Escaneado uma vez, disponível pra sempre.
É libertador e perturbador ao mesmo tempo.
Libertador porque remove limitações físicas, de idade, de disponibilidade. Perturbador porque levanta a pergunta óbvia: a partir de quando o dado te substitui?

E aí vem a parte que ninguém quer discutir abertamente: o controle.
Quem decide como esse dado é usado? O artista enquanto viver, tudo bem — mas e depois? Os herdeiros? A gravadora? O estúdio que detém os direitos?
Elvis Presley morreu em 1977. Em 2023, a voz dele apareceu em remixes, colaborações, campanhas. Ninguém perguntou pra ele.
Isso não é hipótese. É o presente.

O clipe dos Stones em “In The Stars” vai ser lembrado como entretenimento. Mas pra quem trabalha com criatividade, com comunicação, com cultura — é um sinal.
O corpo humano acabou de se tornar opcional na equação criativa.
O espírito, por enquanto, ainda é insubstituível.
Até quando?​​​​​​​​​​​​​​​​