Eu comecei a perceber isso antes de qualquer pesquisa, artigo ou trend report. Em séries novas, filmes contemporâneos, campanhas de moda e videoclipes, o cigarro reapareceu como um personagem silencioso. Não necessariamente no centro da narrativa, mas sempre ali: na mão do protagonista cansado, no desabafo emocional depois da festa, na pausa melancólica da garota cool olhando pela janela, no vilão carismático, no casal indie dividido entre sexo, vazio existencial e nicotina. Não parece mais um acidente estético. Parece direção de arte coordenada. Um retorno cuidadosamente embalado do cigarro como linguagem visual aspiracional.
E o mais estranho talvez seja justamente o contraste com a vida real. Fora da ficção, eu quase não vejo mais ninguém fumando cigarro no cotidiano. Vape, eventualmente. Um pod numa mesa de bar, outro em festival, alguém escondido numa varanda. Mas o cigarro tradicional praticamente desapareceu do convívio urbano de muita gente. Só que nas telas ele voltou com força total, não como problema de saúde pública, mas como acessório de personalidade. Como textura narrativa. Como símbolo de liberdade emocional num mundo anestesiado por produtividade, autocuidado performático e algoritmos.
A reportagem mais detalhada sobre esse fenômeno saiu na Newsweek, quando a jornalista Marni Rose McFall entrevistou Jared Oviatt, criador da conta @cigfluencers, dedicada exclusivamente a fotos de celebridades fumando. Para ele, o ressurgimento vem de “uma dose saudável de niilismo” misturada à sensação de que o futuro prometido simplesmente não chegou. Na era da inteligência artificial, da automação e da hiperconectividade, o cigarro reaparece como uma das poucas coisas ainda físicas, tangíveis e humanas. Não por acaso, a PAPER Magazine batizou recentemente esse movimento de “cig-sphere”, conectando a estética atual à herança de figuras como Lana Del Rey, Sky Ferreira e as gêmeas Olsen, agora recicladas por nomes como Lily-Rose Depp, Bella Hadid e Charli XCX. O álbum Brat talvez tenha sido o grande marco simbólico dessa virada cultural: uma geração inteira abandonando a estética “clean girl” do bem-estar impecável para mergulhar novamente no excesso, na bagunça, no indie sleaze e na autodestruição romantizada.

A questão é que isso não acontece isoladamente. Moda, música, cinema, TikTok e editoriais parecem operar quase como um ecossistema coordenado de rebranding cultural da nicotina. Kylie Jenner posa fumando na Vanity Fair. Hailey Bieber surge em ensaio carregado de decadência cool. Rosalía presenteia Charli XCX com um buquê de cigarros no lugar de flores. E talvez o exemplo mais explícito dessa virada esteja no novo clipe de Charli XCX, “Rock Music”, lançado há poucos dias, onde cigarros, fumaça, destruição e decadência estética aparecem quase como linguagem central da narrativa visual. O próprio veículo que repercutiu o lançamento descreveu o vídeo como carregado de “cigarette smoking and alleyway loitering”. Rock Music, de Charli XCX Lorde canta sobre “o melhor cigarro da vida dela”. Addison Rae diz precisar fumar para se sentir melhor. Enquanto isso, buscas por “smoking pose” explodem no Pinterest entre jovens de 18 a 24 anos. Não é exatamente publicidade tradicional. Ninguém está vendendo Marlboro num comercial de TV. Mas talvez seja algo mais poderoso: uma campanha atmosférica. O cigarro não volta como produto. Volta como sentimento.
E talvez o dado mais importante seja justamente esse: ninguém dessa geração fuma por falta de informação. A Gen Z cresceu vendo pulmões destruídos em maços, campanhas antitabagistas em horário nobre e professores explicando os riscos da nicotina desde a infância. Ainda assim, parte dela escolhe fumar. Não por ignorância, mas por uma espécie de cálculo emocional onde o longo prazo perdeu valor. Consultorias como a IPSOS já descrevem esse comportamento como “Nouveau Nihilism”: uma geração que começa a duvidar se o futuro vale o sacrifício permanente exigido pela cultura do wellness. Durante quinze anos, fomos ensinados a transformar o próprio corpo num projeto infinito de otimização. Academia, suplemento, biohacking, skincare, relógio monitorando sono, passos, batimento, cortisol. O cigarro reaparece quase como uma pequena sabotagem simbólica contra essa obrigação de viver perfeitamente.
No Brasil, isso ganha uma camada ainda mais perigosa. Porque aqui o tabagismo não voltou apenas como estética. Voltou como hábito real. Dados do Vigitel mostraram crescimento de 25% no número de fumantes em 2024, primeira alta em quase vinte anos. A LENAD III, da Unifesp, revelou que 8,7% dos adolescentes brasileiros já consumiram cigarro eletrônico no último ano, cinco vezes mais do que o cigarro tradicional na mesma faixa etária. E talvez essa seja a parte mais desconfortável da discussão: enquanto os Estados Unidos vivem o cigarro como signo cultural e fetiche visual, o Brasil corre o risco de transformar essa nostalgia estética novamente em problema epidemiológico concreto.
Porque no fim, o cigarro nunca vendeu apenas nicotina. Ele vendeu imagem. Rebeldia. Mistério. Sofisticação. Solidão bonita. Cinema. E talvez o que esteja acontecendo agora seja exatamente isso: uma das campanhas de reposicionamento cultural mais silenciosas e eficientes dos últimos anos. Não feita por fabricantes de tabaco em anúncios explícitos, mas por algoritmos, séries, videoclipes, editoriais e influenciadores reconstruindo lentamente o imaginário cool do cigarro para uma geração que já não acredita muito no amanhã.






