O futuro virou um produto ruim

Por que uma geração inteira está deixando de comprar a promessa do longo prazo

Existe algo curioso acontecendo na cultura contemporânea. Fenômenos aparentemente desconectados começaram a surgir simultaneamente em diferentes partes do mundo e, embora normalmente sejam analisados de forma isolada, talvez compartilhem uma mesma origem. O crescimento explosivo das apostas esportivas, a popularização dos cigarros eletrônicos, a volta da estética decadente dos anos 2000, a obsessão por gratificação instantânea, o adiamento da maternidade e da paternidade, a dificuldade crescente de imaginar aposentadoria e até mesmo a exaustão em torno da cultura do bem-estar parecem pertencer a universos distintos. Observados em conjunto, porém, revelam uma mudança mais profunda: a perda gradual de confiança no valor do longo prazo.

Durante boa parte do século XX, a sociedade foi organizada em torno de uma lógica relativamente simples. O presente era um investimento e o futuro era a recompensa. Estudar exigia anos de dedicação antes de produzir retorno. Construir patrimônio era um projeto de décadas. Cuidar da saúde significava apostar em benefícios que só seriam percebidos muito mais tarde. Poupar dinheiro, desenvolver uma carreira, comprar uma casa ou constituir uma família dependiam da mesma crença fundamental: a ideia de que o futuro recompensaria os sacrifícios realizados hoje.

Não era apenas uma lógica econômica, era uma narrativa cultural, talvez a principal narrativa do capitalismo moderno.

Nos últimos anos, porém, essa narrativa começou a apresentar rachaduras cada vez mais visíveis. O acesso à moradia tornou-se mais difícil em grande parte do mundo. A estabilidade profissional foi substituída por ciclos contínuos de reinvenção. A velocidade das transformações tecnológicas passou a tornar competências inteiras obsoletas em poucos anos. Crises financeiras, pandemias, inflação, polarização política e mudanças climáticas se acumularam num intervalo tão curto que o planejamento de longo prazo começou a parecer menos uma estratégia racional e mais um exercício de fé.

Quando a Ipsos publicou sua mais recente edição do relatório Global Trends, identificou o avanço do que chamou de Nouveau Nihilism. A definição não descreve uma geração que desistiu do futuro, mas uma geração que passou a desconfiar dele. A diferença é importante. O niilismo tradicional pressupõe abandono. O fenômeno observado pela consultoria parece muito mais próximo de uma erosão de confiança, as pessoas continuam desejando estabilidade, prosperidade e segurança, mas já não demonstram a mesma convicção de que esses objetivos serão alcançados pelos caminhos tradicionalmente oferecidos pelas instituições.

Essa mudança ajuda a explicar uma série de comportamentos que costumam ser tratados apenas como desvios individuais. O crescimento das apostas esportivas talvez seja um dos exemplos mais evidentes. No Brasil, milhões de pessoas passaram a apostar regularmente não apenas por entretenimento, mas também pela expectativa de complementar renda ou resolver dificuldades financeiras. Quando quase metade dos usuários declara apostar para obter dinheiro extra ou pagar contas, o fenômeno deixa de ser apenas uma questão de lazer. As apostas passam a funcionar como um retrato de um ambiente em que a ascensão gradual parece cada vez menos plausível e a ideia de uma virada rápida começa a parecer sedutora.

O sucesso das bets costuma ser explicado pela tecnologia, pela publicidade agressiva ou pela falta de regulação. Tudo isso é verdade. Mas talvez exista uma camada mais profunda, a aposta oferece algo que o mercado de trabalho, a política e até parte das instituições deixaram de oferecer com a mesma intensidade: a sensação de que uma mudança significativa ainda pode acontecer rapidamente.

A mesma lógica aparece em lugares menos óbvios. Nos últimos meses, diversos analistas culturais passaram a observar a reconstrução estética do cigarro entre jovens consumidores. O retorno não acontece porque uma geração inteira ignorou décadas de campanhas antitabagistas. Pelo contrário. Nunca houve tanto acesso à informação sobre os danos causados pela nicotina. Ainda assim, o cigarro reaparece em videoclipes, séries, editoriais de moda e redes sociais não como símbolo de saúde, mas como símbolo de liberdade, imperfeição e recusa.

Durante anos, a cultura do bem-estar vendeu a ideia de que o corpo deveria ser tratado como um projeto permanente de otimização. Monitorar o sono, medir passos, controlar calorias, acompanhar marcadores biológicos, melhorar a performance física e prolongar a longevidade transformaram-se em atividades cotidianas. Toda essa indústria depende de uma premissa central: a crença de que vale a pena sacrificar parte do presente em nome de uma versão futura mais saudável, produtiva e eficiente de si mesmo.

O problema é que essa promessa começa a encontrar resistência justamente quando o futuro perde parte da sua credibilidade. Talvez por isso seja possível observar, ao mesmo tempo, a ascensão de medicamentos para emagrecimento, relógios inteligentes e biohacking convivendo com o crescimento das apostas, da estética decadente, do consumo impulsivo e de formas cada vez mais intensas de escapismo digital. O que parece contradição talvez seja apenas a coexistência de duas respostas diferentes para a mesma ansiedade.

Existe um aspecto particularmente interessante nesse processo. Durante muito tempo, comportamentos de curto prazo foram interpretados como sinais de irresponsabilidade. Hoje eles podem ser lidos também como adaptações a um ambiente percebido como instável. Se uma geração cresce acreditando que terá mais dificuldade para comprar uma casa, construir patrimônio, se aposentar ou prever o próprio mercado de trabalho, o peso simbólico do futuro naturalmente diminui. Quando isso acontece, o presente deixa de ser apenas uma etapa intermediária e passa a concentrar uma parcela maior do valor emocional da vida.

Isso não significa que estamos assistindo ao colapso da esperança. A situação é mais complexa do que isso. As pessoas continuam planejando, estudando, investindo e construindo projetos de longo prazo. O que parece estar mudando é a confiança depositada nessas apostas. O futuro não desapareceu, ele apenas deixou de parecer tão garantido quanto costumava parecer.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das explicações mais úteis para entender o nosso tempo. Muitos dos comportamentos que hoje parecem irracionais tornam-se mais compreensíveis quando observados sob a perspectiva de uma crise de credibilidade do longo prazo. A discussão deixa de ser sobre uma geração preguiçosa, imediatista ou inconsequente e passa a ser sobre uma geração que cresceu assistindo à fragilização de praticamente todas as promessas que organizaram a vida adulta das gerações anteriores.

Para marcas, governos, empresas e instituições, essa talvez seja a transformação mais relevante em curso. Durante décadas, vender futuro foi relativamente simples. Bastava prometer progresso. Hoje, a própria ideia de progresso precisa ser reconstruída. Não porque as pessoas tenham deixado de desejar uma vida melhor, mas porque passaram a exigir evidências mais concretas de que essa vida melhor continua ao alcance.

Uma sociedade não depende apenas de indicadores econômicos para funcionar. Ela depende também de uma crença compartilhada de que vale a pena esperar. Quando essa crença começa a enfraquecer, não é apenas o comportamento do consumidor que muda. Muda a relação das pessoas com trabalho, política, saúde, dinheiro, risco e prazer.

Acho que a pergunta mais importante do nosso tempo não é a por que tantas pessoas estão buscando recompensas imediatas, mas talvez a pergunta seja: o que acontece com uma sociedade quando o futuro deixa de ser uma promessa convincente?