“66 por dia” soa distante. Abstrato. Quase burocrático.
Mas todos os dias, 66 crianças e adolescentes desaparecem no Brasil.
É um número alto o suficiente para gerar indignação, mas abstrato o suficiente para não alterar a rotina de quase ninguém. E talvez esse seja um dos maiores problemas da comunicação pública contemporânea: convivemos diariamente com estatísticas tão brutais que nosso cérebro aprende a processá-las apenas como informação de passagem.
Números entram no feed, aparecem em reportagens, viram gráficos, sobem em apresentações e desaparecem junto com a próxima atualização da timeline. A tragédia se transforma em dado. O dado vira hábito. E o hábito anestesia.
Boa parte das causas sociais não sofre pela ausência de informação. Sofre pela ausência de visualização coletiva.
Porque existe uma diferença enorme entre ler “66 crianças desaparecem por dia” e atravessar uma praça histórica tomada por 66 cadeiras vazias. Existe uma diferença brutal entre consumir um dado racionalmente e encontrar esse dado materializado no espaço público, disputando atenção com carros, igrejas, buzinas, comércio ambulante e gente tentando seguir a própria rotina.
Talvez por isso intervenções urbanas ainda tenham tanta potência em um tempo dominado por excesso de conteúdo digital. Elas quebram automatismos. Interrompem fluxo. Produzem atrito visual num mundo desenhado para acelerar o olhar o tempo inteiro.
Quando uma intervenção funciona, ela não depende apenas de mídia para existir. Ela se transforma em comentário, registro, reportagem, conversa, foto, memória e compartilhamento espontâneo. O espaço público vira plataforma de comunicação.
E existe algo ainda mais simbólico quando isso acontece na Praça da Sé, lugar onde nasceu o movimento Mães da Sé há 30 anos. Não apenas pelo peso histórico do espaço, mas porque ele representa exatamente o oposto da invisibilidade. A praça sempre foi lugar de encontro, protesto, manifestação, denúncia e disputa de narrativa pública.
Em muitos casos, criatividade é tratada apenas como ferramenta de performance, entretenimento ou diferenciação comercial. Mas talvez uma das funções mais relevantes da comunicação continue sendo outra: devolver temas importantes para o centro da conversa social.
Especialmente em um momento em que tantas causas acabam soterradas pela velocidade do feed, pela disputa algorítmica de atenção e pela necessidade constante de novidade.
Intervenções criativas não resolvem problemas estruturais sozinhas. Não substituem política pública, investigação, assistência social ou segurança. Mas conseguem fazer algo fundamental: devolver visibilidade humana para temas que muitas vezes passaram tempo demais tratados apenas como estatística.
E talvez esse seja um dos papéis mais importantes da comunicação hoje. Não apenas informar mas encontrar maneiras de fazer a sociedade olhar de novo.
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A ação foi produzida de forma pro bono pela agência BeHumble.





