Quando Ritchie Blackmore voltou a tocar com o Deep Purple, em agosto, depois de 33 anos longe da banda, Simon McBride resumiu o encontro de um jeito difícil de melhorar.
Em entrevista à Guitar World, o atual guitarrista da banda disse que estava tocando ao lado do cara que “começou tudo isso”.
A frase ficou comigo porque quase ninguém começa tudo.
A gente gosta de imaginar a própria trajetória como uma espécie de ponto zero. Minhas ideias. Meu jeito. Minha linguagem. Meu processo.
É uma versão bonita da história. Só que quase sempre mentirosa.
Antes de encontrarmos uma voz própria, alguém já abriu uma porta, inventou um vocabulário ou mostrou que determinado caminho era possível.
Blackmore fez isso para uma geração inteira de guitarristas, assim como outros fizeram por ele.
Li uma vez Yngwie Malmsteen contando sobre o impacto que Made in Japan teve sobre ele. Anos depois, Steve Morse ocupou a vaga de Blackmore no Deep Purple sem tentar ser Blackmore. Trouxe outra formação, outra técnica, outro som. E também virou referência para quem veio depois.
É assim que uma linguagem cresce. Não por substituição, mas por acúmulo.
Uma influência não desaparece quando surge outra. Ela se mistura a tantas outras até o ponto em que já nem sabemos mais de onde determinadas ideias vieram.
Talvez por isso eu goste de pensar em influência como infraestrutura.
Ela está na música que você faz, no jeito como apresenta uma ideia, no tipo de referência que você procura sem saber exatamente por quê.
A gente constrói sobre coisas que, com o tempo, ficam invisíveis e nos mostram que o novo também tem antepassados.
O grande problema é que criatividade virou quase sinônimo de novidade. Se alguma coisa já foi feita antes, parece valer menos. Se uma ideia carrega influências demais, parece menos original.
E ao meu ver existe uma diferença enorme entre repetir uma ideia antiga sem saber e voltar conscientemente a ela para tentar levá-la a outro lugar.
No primeiro caso, você chegou atrasado. No segundo, talvez esteja criando.
As linguagens reaparecem sem necessariamente carregar consigo a história que a produziu. Sem cronologia, fica mais difícil enxergar influência e, sem influência visível, fica mais fácil confundir descoberta com invenção.
Voltar a Blackmore, nesse sentido, não é olhar para trás, seria enxergar melhor a estrada.
Talvez a maturidade criativa comece justamente quando abandonamos a fantasia de que tudo nasceu na nossa cabeça, na nossa prancheta, no nosso briefing.
Quase nada nasce ali.
O que realmente nos pertence é outra coisa. É o que fazemos depois que recebemos tudo isso.
E é assim que leio a fala de McBride.
Ao olhar para Blackmore, ele reconheceu alguém que já fazia parte da sua história antes mesmo de os dois se conhecerem.
Talvez todo mundo que trabalha criando alguma coisa tenha alguém assim.
A parte difícil é descobrir quem.







